Atualização mensal da radiografia da seca no Nordeste


Por Letras Ambientais
quinta, 26 de setembro de 2019


Em 1984, Manoel Correia de Andrade, um conhecido estudioso do Nordeste, chamava atenção para alguns mitos em torno da seca na área semiárida do Brasil. A região tinha acabado de enfrentar uma das mais longas secas da sua história até então (1979-1983).

Andrade destacava a necessidade de desconstruir os seguintes mitos sobre a seca no Nordeste1) desmitificar a seca como elemento desestabilizador da economia e da vida social nordestina; e 2) desmitificar a tese dos que defendiam uma “solução hídrica” para a região seca, pois a falta de água não era o fator único e determinante dos problemas existentes na região.

Ele acreditava que a construção de grandes açudes e obras de irrigação não iria resolver os maiores problemas do Nordeste. Essas obras beneficiavam empresas agrícolas e agroindustriais, ao invés de solucionar problemas fundamentais da maioria da população.

Enquanto isso, pouca importância foi dada à política de formação técnica, nos postos agrícolas, com ensino prático para melhorar a capacidade dos pequenos agricultores no uso da irrigação e na piscicultura.

Essas histórias foram contadas com detalhes no Livro “Um século de secas”. Por ora, destacamos a falta de preparo, predominante ainda hoje, nos municípios do Nordeste brasileiro, para conviver com a seca.

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sobre o Perfil dos Municípios Brasileiros (Munic), mostrou que, no período de 2013 a 2016, mais de 80% dos municípios do Nordeste foram afetados pela seca.

Apesar disso, somente cerca de 15% deles possuíam um plano específico de contingência e/ou prevenção à seca. A maioria adotou apenas ações emergenciais para evitar ou minimizar os impactos causados pela seca. 

Diferentemente da seca de 1979-1983, nos dias de hoje, as geotecnologias permitem o monitoramento contínuo da seca, fornecendo indicadores essenciais, de forma rápida e prática, para o planejamento de ações para gestão da seca.

O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) elabora mapas que mostram o atual percentual de umidade dos solos nas regiões brasileiras. É uma das ferramentas que fornece uma radiografia mais atualizada da seca, nos diferentes municípios brasileiros. 

 

No mapa acima, você pode visualizar, de uma só vez, a atual situação da umidade dos solos no Semiárido brasileiro. A ferramenta é um importante indicador da condição de seca predominante em toda a região.

A cor vermelha do mapa mostra situação de umidade dos solos abaixo de 10%, considerada muito baixa, em quase toda a região.

Se você quer aprender a elaborar essas imagens de satélites, clique aqui para conhecer o Treinamento Online “Produtos e serviços de satélites, com prática no QGIS”, oferecido pelo Lapis.

A seguir, iremos atualizar a radiografia da seca e estiagem nos estados do Nordeste, com base em mapas da umidade dos solos, da segunda quinzena de setembro de 2019.

Ranking da seca nos municípios do Nordeste

radiografia da seca nos estados do Nordeste

Fonte: Lapis.

O gráfico acima mostra o atual ranking da seca no Nordeste, com os respectivos números de municípios afetados pelo evento climático em cada estado da região.

Os estados com maior percentual de municípios secos do Nordeste, proporcionalmente, são: 1º) Paraíba; 2º) Piauí; 3º) Ceará; e 4º) Rio Grande do Norte.

Já os estados com menor número de municípios secos, proporcionalmente, são: 1º) Alagoas; 2º) Sergipe; e 3º) Bahia.

Quer saber a atual situação da seca em cada estado do Nordeste? Então continue lendo e confira a análise da radiografia da seca em toda a região.

A radiografia foi feita com uso de imagens de satélites da umidade dos solos. Os mapas utilizados neste post resultam do monitoramento por satélites, realizado pelo Lapis, referente ao período de 16 a 22 de setembro de 2019.

Também destacamos dados sobre os municípios que se encontram em situação de emergência na região, por conta de seca e estiagem. A análise foi feita com dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, da Defesa Civil nacional.

Alagoas

 

O mapa da umidade dos solos acima mostra que 58% dos municípios de Alagoas enfrentam situação de seca moderada, o que corresponde a 60 municípios do Agreste e do Sertão.

No Sertão, a umidade dos solos é inferior a 10%, considerada muito baixa. Já no Agreste, está entre 10 e 20%, indicando também situação de seca moderada. Não há registro de seca no Leste alagoano.

39 municípios de Alagoas em situação de emergência, por conta da estiagem, segundo dados da Defesa Civil.

Bahia

 

A imagem de satélite acima, da umidade dos solos, mostra que 80% dos municípios da Bahia, ou 332 deles, estão afetados por seca grave ou moderada. Apenas em alguns municípios do Sul baiano, não há registro de seca, pois o percentual de umidade dos solos está acima de 20%.

Apesar do alto número de municípios com registro de seca na Bahia, somente 45 deles foram reconhecidos em situação de emergência, pela Defesa Civil nacional.

Ceará

 

O mapa acima mostra condição de umidade dos solos inferior a 10% em praticamente todo o Ceará. Esse percentual é considerado muito baixo, indicando situação de seca em 96% dos municípios do estado, com um total de 177 deles enfrentando situação de seca moderada.

Apesar do grande número de municípios afetados pela seca no Ceará, apenas 60 deles foram reconhecidos em situação de emergência, pela Defesa Civil nacional.

Maranhão

 

A imagem de satélite da umidade dos solos do Maranhão mostra que 80% dos seus municípios enfrentam seca fraca, um total de 175 deles. A maioria desses municípios está com percentual de umidade dos solos abaixo de 10%, considerado muito baixo.

Apesar do indicador de predomínio de seca na maior parte do estado, não há municípios reconhecidos atualmente em emergência, pelo governo federal.

Paraíba

 

A Paraíba é, proporcionalmente, o estado com maior número de municípios afetados pela seca no Nordeste brasileiro. De acordo com o mapa da umidade dos solos acima, há registro de seca moderada em todos os seus municípios. Nos Cariris paraibanos, já existem alguns municípios em situação de seca grave.

Grande parte do Agreste, toda a mesorregião da Borborema e o Sertão da Paraíba estão com percentual de umidade dos solos abaixo de 10%. Até mesmo na Zona da Mata paraibana, a umidade está em torno de apenas 15%. O percentual é considerado muito baixo e indicativo de situação de seca moderada na maior parte do estado.

Atualmente, há registro de seca em todo o estado da Paraíba e um total de 177 municípios já foram reconhecidos em situação de emergência.  

Pernambuco

 

Em Pernambuco, 82% dos municípios estão afetados por seca grave ou moderada, correspondendo a um total de 152 deles. De acordo com a imagem de satélite da umidade dos solos, a maior parte do estado está com percentual de umidade dos solos abaixo de 10%, considerado muito baixo.

Somente na região da Mata pernambucana, não há registro de seca. A região do São Francisco e parte do Agreste pernambucano já enfrentam situação de seca grave. Nos demais municípios, predomina situação de seca moderada.

Apesar de a seca afetar quase todo o estado de Pernambuco, somente 64 municípios foram reconhecidos em situação de emergência.

Piauí

 

No Piauí, há registro de seca em 98% dos municípios atualmente, totalizando 221 deles afetados por situação de seca moderada.

De acordo com o mapa acima, obtido a partir de satélites, praticamente todo o estado está com percentual de umidade dos solos abaixo de 10%, considerado muito baixo.

Apesar de a ferramenta indicar situação de seca em quase todo o estado, apenas 38 municípios estão em situação de emergência, pela Defesa Civil nacional, por ocasião de seca ou estiagem.

Rio Grande do Norte

 

No Rio Grande do Norte, 95% dos municípios estão afetados por seca, correspondendo a um total de 159 deles. A imagem de satélite acima mostra que praticamente todo o estado está com percentual de umidade dos solos inferior a 10%, considerado muito baixo.

A maioria dos municípios enfrentam seca moderada. Somente alguns municípios do Seridó Oriental já estão em situação de seca grave.

Apesar da atual condição de seca em todo o Rio Grande do Norte, não há municípios reconhecidos pela Defesa Civil, em situação de emergência, por conta de seca ou estiagem.

Todavia, no dia 10 de setembro, o governo do estado publicou decreto para renovação da situação de emergência, por causa da seca, em 135 municípios. É a primeira medida para que o governo federal confirme a situação de emergência nos municípios e garanta os recursos necessários a ações de contingência ao desastre.

Sergipe

 

Em Sergipe, 68% dos municípios enfrentam seca moderada, correspondendo a um total de 51 deles. A imagem de satélite acima mostra que a maior parte dos municípios do estado está com umidade dos solos abaixo de 20%, considerado baixo. Esse percentual indica situação de seca moderada no Agreste e Sertão.

Apesar do número significativo de municípios sergipanos em situação de seca, apenas cinco deles estão em emergência, por conta de seca ou estiagem.

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