Brasil: como ser campeão contra a desertificação?


Por Letras Ambientais
quinta, 30 de agosto de 2018

Foto: Karina Zambrana.


Luzia é uma mulher indígena, de 45 anos, mãe de seis filhos. Ela vive na Ilha da Assunção, às margens do rio São Francisco, em Cabrobó, no Sertão pernambucano. Faz parte da comunidade étnica Truká, habitante secular daquela localidade. Desde o século XVIII, esse povo indígena da caatinga teve suas terras expropriadas pelo Estado. Hoje, com uma população reduzida a menos de 6 mil pessoas, os Truká lutam pelo direito à terra e pela demarcação oficial do seu território. Este sempre foi o sonho de Luzia. Um sonho que lhe parece cada dia mais distante.

Há algumas décadas, outro problema inesperado apareceu naquela comunidade: a desertificação. Trata-se do processo de degradação extrema do solo, da vegetação e da biodiversidade de uma região árida, semiárida ou subúmida seca, causado pela ação de fatores climáticos ou humanos. Ou seja, é a transformação gradativa de áreas secas em desertos.

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Luzia Truká é agricultora e ama conservar a terra. Na rotina comunitária com seus parentes, sabe que o solo e a caatinga sempre lhes garantiram o sustento. Embora com dificuldades, aprenderam a viver ali, adaptaram-se às condições naturais da caatinga. No roçado, cultivavam um pouco de tudo, frutas, legumes, raízes e grãos, principalmente o milho. Cabrobó é reconhecido como um núcleo de produção de alimentos.

Caatinga desertificada

Área desertificada, cascalho e pedras, com uma pequena planta verde

Mas algo entristece Luzia, uma mulher que guarda em seu rosto as marcas do tempo, da luta e da resistência na caatinga. Na manhã daquele domingo, quando fui conhecer a Ilha, ela dirigiu-se comigo até o roçado, cavou o chão com a própria mão. Um chão esturricado, esbranquiçado, salino, desertificado. “Minha filha, este sempre foi nosso maior tesouro. O solo é a sobrevivência do povo Truká, desde nossos ancestrais, cuidamos dos solos. É uma forma especial de cuidar bem da terra, que passamos de geração em geração”. E acrescentou: “Eles nos entregaram um solo morto, a sucata da terra, com a herança das ovelhas e das algarobas. O que nos restou foi a erosão, o sal e o deserto”.

Referia-se aos não-indígenas que se apossaram das terras da comunidade, pelo menos desde os anos 1970, explorando-as até a exaustão. Grandes produtores do agronegócio usurparam as terras dos Truká, derrubaram a vegetação, queimaram o solo, usaram adubos químicos, agrotóxicos. Adotaram cultivos e práticas agrícolas inadequadas às características do solo da região semiárida.

Foi o caso do arroz, destrutivo naquela área da Caatinga, em função da irrigação por inundação, técnica rudimentar que, além do desperdício de água, estragou e salinizou o solo. A salinização torna os solos estéreis e dificulta o desenvolvimento das plantações. Mas os grandes produtores não pararam por aí. Também substituíram por algarobas as árvores nativas da caatinga, como juazeiro, quixabeira, baraúna, aroeira e jurema. A algaroba é uma planta exótica, natural do Peru, utilizada na alimentação dos animais.

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Na Ilha da Assunção, onde vivem os índios Truká, o resultado dessa forma de uso da terra não poderia ser diferente: cicatrizes irreversíveis nos solos, marcas de devastação na vegetação, áreas de deserto, cerca de 40% de terras improdutivas, às margens do São Francisco, principal fonte de água do Semiárido brasileiro. Um processo de degradação ambiental sem precedentes em extensas áreas de Cabrobó, com consequente diminuição na produção agrícola, perda da fertilidade e salinização dos solos.

Desertificação: cartografia em expansão no Brasil

Imagem de satélite mostra áreas em desertificação no Semiárido
Imagem de satélite da desertificação. Foto: Lapis.

 

Mas o município de Cabrobó não está isolado, faz parte de uma cartografia em constante expansão: a da desertificação no Semiárido brasileiro. Cerca de 16% do território brasileiro encontra-se em risco de desertificação, incluindo municípios do Nordeste e do norte de Minas Gerais. Aproximadamente 32 milhões de pessoas, mais de 18% da população brasileira, já são atingidas pelo processo.

Um estudo inédito do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), realizado com base na análise de imagens de satélites, mostra que esses territórios desertificados já somam mais de 126 mil km2. O avanço das áreas desertificadas ameaça a segurança hídrica, alimentar e energética da população.

São terras completamente estéreis, sem alternativa viável de reversão, resultado do mau uso do solo e da devastação da caatinga, agravado pela severa seca, a exemplo da ocorrida entre 2010-2017, considerada a pior do século no Semiárido brasileiro. O livro “Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?” aprofunda a discussão entre secas, desertificação e políticas para a Caatinga, buscando na história lições para a atual gestão sustentável de eventos climáticos extremos no bioma.

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Um modelo econômico predatório não leva muito tempo para transformar uma área produtiva em deserto. É o caso do impacto na vida da população indígena Truká, em Cabrobó. Ali, em apenas 40 anos, os jovens solos da caatinga não resistiram à voracidade da ação humana. A retirada da vegetação tornou-os mais expostos às intempéries da natureza, provocando a erosão e a consequente desertificação. Quatro décadas de degradação foram suficientes para exaurir os recursos naturais e deixar a população Truká mais vulnerável às condições climáticas e ambientais de uma das áreas mais degradadas do Semiárido brasileiro.

Na Caatinga, o rio São Francisco atravessa o ambiente mais alterado e degradado de todos os biomas por onde passa, sendo a desertificação a proporção mais catastrófica dos problemas ambientais da região. Com a degradação dos solos, há redução na capacidade produtiva da agropecuária, empobrecimento e deterioração das condições sociais da população, culminando, muitas vezes, na migração de famílias que, sem alternativas, deixam a zona rural.

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É um ciclo vicioso que deteriora a estrutura dos solos, reduz a biodiversidade, perturba o ciclo hidrológico e impacta negativamente a vida da população. Há uma relação intrínseca entre o avanço da desertificação e o aumento da pobreza extrema da população atingida. Os países em desenvolvimento abrigam 72% de todas as áreas secas do mundo, significando que 90% das pessoas afetadas vivem nas regiões mais pobres. Em função da diminuição na produção de alimentos ou na quebra nas safras, a desertificação gera prejuízos socioeconômicos cuja dimensão, talvez, ainda não tenha sido contabilizada.

A desertificação aumenta o grau de vulnerabilidade local dos municípios do entorno do rio São Francisco aos fenômenos naturais extremos, como a seca. As cidades com maior comprometimento da cobertura vegetal estão entre as mais vulneráveis, como é o caso de Cabrobó, onde a agricultora Luzia e sua comunidade buscam alternativas para garantirem uma vida melhor.  

As projeções de aumento da desertificação, nos próximos 30 anos, em função da redução nas chuvas e temperaturas mais altas, ampliam os riscos para diversos setores socioeconômicos, principalmente o agropecuário. Isso alerta sobre a necessidade de se adotarem boas práticas de conservação dos solos, da vegetação e das águas.

Soluções contra a desertificação

Criança indígena com roupa de palha e adorno de sementes, em uma área em desertificação
Foto: Museu do Índio.

Assegurar que a vegetação não desapareça é uma das formas mais seguras para se evitar a erosão, além da adoção de práticas sustentáveis de manejo sustentável dos solos. Prevenir ainda é a melhor solução para lidar com uma doença incurável, como é o caso da desertificação.

Também é importante criar mecanismos para analisar dados e informações de monitoramento ambiental disponíveis sobre o Semiárido brasileiro, de forma a pautar a agenda de políticas públicas. A difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos, relacionados a boas práticas de conservação dos recursos naturais, também é um dos caminhos para evitar o aumento do mapa da desertificação.

A situação dos Truká, na Ilha da Assunção, é bastante delicada e complexa, requerendo a atenção de cientistas, organizações civis e formuladores de políticas, na busca por soluções para evitar a dispersão daquele grupo indígena do Semiárido. E o mais grave é que aquela comunidade não está isolada, mas se soma a outros milhares de habitantes de áreas desertificadas na Caatinga.

Luzia segue resistente, teimosa, tentando recuperar a integridade do solo, a vegetação nativa, nos arredores da comunidade. A permanência dessa etnia hoje, em Cabrobó, é símbolo de uma secular história de luta contra a ambição humana, legitimada pelo Estado ou pela Igreja. Não era essa terra deserta, essa caatinga devastada, essas águas minguadas que queria deixar para seus descendentes. Mas os Truká deixarão a marca do amor e do respeito à terra e às matas, sustento da vida, das presentes e futuras gerações.  Certamente, o melhor antídoto contra a expansão da desertificação.

Nessa Copa, lute pelo Brasil!

Hoje, 17 de junho, celebra-se o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca. A data coincidiu com o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo 2018. É claro que os brasileiros estão eufóricos na torcida pela vitória da seleção. Mas que tal aproveitar esse espírito de amor nacional para refletir sobre soluções para a desertificação e lutar efetivamente pelo País? 

E você, acredita que o Brasil pode ser campeão no combate ao aumento da desertificação?

A versão em inglês deste artigo foi divulgada em parceria com a World Environmental Conservancy (WEC). Acesse: Brazil: how to be a champion against desertification?

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