Como evitar os perigos do lixo eletrônico?


Por Letras Ambientais
sexta, 31 de agosto de 2018

Fotógrafo canadense transformou 1,8 tonelada de resíduos eletrônicos em arte


Estamos buscando urgentemente informações sobre como descartar nossos equipamentos elétricos e eletrônicos, de forma correta e segura, a exemplo de computadores antigos, smartphones, baterias, geladeiras, entre outros.

Uma pesquisa do Ministério do Meio Ambiente (MMA), realizada em 2012, demonstrou que a maioria da população brasileira descarta pilhas e baterias no lixo da própria residência (58%), celulares antigos (18%), notebooks e componentes de computadores (9%), além de eletrodomésticos de uma forma geral (16%).

Mundialmente, sete bilhões de pessoas produzem cerca de 1,4 bilhão de tonelada de lixo por ano. Se o ritmo atual for mantido, em 2050, seremos 9 bilhões de habitantes no Planeta, gerando, anualmente, 4 bilhões de toneladas de resíduos sólidos. A previsão alarmante é do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

A situação dos resíduos eletrônicos é ainda mais grave. Segundo um Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2016, todos os países do mundo geraram incríveis 44,7 milhões de toneladas de lixo eletrônico, o equivalente a 6,1 quilogramas por habitante. O volume global representou um aumento de 8% em relação a 2014.

Lixo Eletrônico formado por vários computadores e equipamentos eletrônicos

Resíduos eletrônicos são todos os itens de equipamentos elétricos e eletrônicos, descartados pelo proprietário como lixo, sem destiná-los à reutilização ou reciclagem. Incluem uma ampla gama de produtos domésticos ou comerciais, com componentes elétricos ou com alimentação a bateria.

As principais categorias de resíduos eletrônicos são: eletrodomésticos utilizados na refrigeração; telas e monitores; lâmpadas; grandes equipamentos elétricos; aparelhos e instrumentos; dispositivos de tecnologia da informação e telecomunicações.

A ONU advertiu sobre o crescente volume de resíduos eletroeletrônicos, representando uma séria ameaça ao ambiente e à saúde humana, além de prejudicar a economia.

O crescimento explosivo da indústria eletrônica e a consequente escalada na geração de lixo tem sido um enorme desafio aos tomadores de decisão política, empresários e consumidores.

Níveis mais elevados de renda, aumento da urbanização e industrialização, em muitos países em desenvolvimento, estão levando à produção de volumosa quantidade de equipamentos elétricos e eletrônicos, resultando em maior acúmulo de resíduos.

A ampliação do consumo desses bens, produzidos com ciclos de vida cada vez mais curtos, tem colocado em discussão alternativas para sua destinação correta, quando não são mais utilizados. O descarte desses equipamentos e aparelhos tem sido feito de forma imprópria e insegura, em geral, através da queima ou do despejo em aterros sanitários.

Lixo eletrônico: impactos ambientais e humanos

Reciclagem sustentável de lixo eletrônico para fazer esculturas artesanais

Obra do artista plástico Marcos Sachs. Foto: Divulgação. 

As tendências atuais sugerem um aumento substancial no volume de resíduos eletrônicos gerados, nas próximas décadas. Especialistas da ONU preveem um crescimento de 17% na produção desse tipo de lixo, atingindo 52,2 milhões de toneladas, em 2021.

De todos os resíduos eletrônicos descartados em 2016, apenas cerca de 20% foram coletados e reciclados. Assim, diante do aumento da população mundial com acesso à internet, bem como da ampliação do consumo e descarte desses aparelhos eletrônicos, as taxas de reciclagem e de reutilização ainda são muito baixas.

Em São Paulo, uma Cooperativa de Produção, Recuperação, Reutilização, Reciclagem e Comercialização de Resíduos Sólidos Eletroeletrônicos (Coopermiti) recebe placas e componentes eletrônicos para transformá-los em obras de arte. É o caso das esculturas, painéis e pinturas feitas pelo artista plástico Marcos Sachs.

Itens eletrônicos podem ser reutilizados ou reciclados em diversos fins, mas, infelizmente, uma grande quantidade ainda segue o caminho dos aterros sanitários. Por outro lado, pesquisas indicam que a maioria da população prefere armazená-los em suas residências, mesmo não sendo mais úteis em casa ou no escritório, por desconhecer opções de reciclagem adequadas.

A falta de coleta ou o descarte desses aparelhos em locais inapropriados contaminam o solo e os cursos d’água, a queima sem controle polui o ar, enquanto o baixo uso de materiais reciclados acelera o esgotamento dos recursos naturais.

Resíduos eletrônicos no mundo

Segundo o Relatório The Global E-Wast Monitor 2017, da ONU, em 2016, a Ásia foi, de longe, a maior geradora de resíduos eletrônicos no mundo (18,2 Mt). Ao mesmo tempo, a região produziu menos resíduos por habitante (4,2 kg/hab), com uma taxa de reciclagem em torno de 15%.

Em segundo lugar na geração de resíduos eletrônicos ficou a Europa (12,3 Mt), seguida das Américas (11,3 Mt), da África (2,2 Mt) e da Oceania (0,7 Mt).

Nas Américas, foram gerados cerca de 25% do total de lixo eletrônico produzido no mundo. A taxa de reciclagem nessa região foi de 17%, principalmente provenientes da América do Norte, onde áreas mais ricas, como Estados Unidos e Canadá, produziram maior quantidade por habitante: cerca de 20 kg/hab.

Na América do Sul, há menos leis em vigor para gerenciar os resíduos eletrônicos, e a maior parte da reciclagem desses materiais é administrada pelo setor informal e empresas privadas.

Lixões ainda são realidade no Brasil

Equipamentos eletrônicos dispensados em um lixão a céu aberto

No Brasil, desde 2010, existe uma Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010). Todavia, essa legislação não foi suficiente para impulsionar soluções sustentáveis aos principais problemas em toda a cadeia do setor, incluindo a destinação correta de resíduos eletrônicos.

Embora a norma tenha estabelecido o fim dos lixões a céu aberto até 2014, cerca de 60% dos municípios brasileiros não utilizam aterros sanitários como destino final do seu lixo, descartando-o para destinos inadequados.

Dados do Relatório Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2016, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), confirmaram a existência de quase 3 mil lixões ainda em operação em 28% dos municípios brasileiros.

Além disso, cerca de 32% das cidades enviaram seu lixo a destino também considerado inadequado: os aterros controlados. Esses espaços não possuem sistema de tratamento dos poluentes, derivados da decomposição dos resíduos, tampouco mecanismos de proteção do solo.

Assim, continuam a ocorrer problemas ambientais como a contaminação dos solos e do lençol freático pelo chorume – líquido altamente poluente, gerado pela decomposição da matéria orgânica –, além da emissão de gás metano, um dos agravantes das mudanças ambientais.

A realidade é preocupante, em função dos prejuízos ambientais, sociais, econômicos e humanos causados pela falta de uma gestão efetiva dos resíduos sólidos no País e ausência de programas para reciclagem de resíduos elétricos ou eletrônicos. Tanto a iniciativa pública quanto a privada deveriam fortalecer uma cadeia produtiva do setor, gerando emprego e renda à população, ao mesmo tempo, protegendo o ambiente e a saúde humana.

Indústrias de reciclagem, usinas de biogás e compostagem incentivariam o desenvolvimento do setor de resíduos, incluindo da reciclagem de eletrônicos.

Indústria restaurativa como solução sustentável

Uma placa de computador e um boneco, para reciclagem sustentável de equipamentos eletrônicos

Existem países muito avançados na legislação e aproveitamento dos resíduos sólidos. Na Alemanha, por exemplo, o setor de reciclagem movimenta mais de € 50 bilhões por ano, oferecendo milhares de oportunidades de negócios às empresas.

Muitos países têm aliado o crescimento da demanda de energia com o gerenciamento dos resíduos sólidos, investindo em tecnologias de aproveitamento energético do lixo, como a queima direta de resíduos em usinas térmicas e a produção de biogás. Uma questão importante, nesses casos, é buscar estratégias tecnológicas para evitar a emissão de gases de efeito estufa sobre a atmosfera.

As baixas taxas de reciclagem provocam diversos impactos sociais e econômicos negativos: redução na geração de emprego e renda, prejuízos à saúde humana e ao ambiente, além do descarte de recursos naturais preciosos e escassos. Os resíduos eletrônicos contêm ricos depósitos de ouro, prata, cobre, platina e outros materiais recuperáveis ​​de alto valor, cujo custo total, em 2016, foi estimado em € 55 bilhões. Essa cifra excede o Produto Interno Bruto (PIB) da maioria dos países em o mundo.

Os produtos eletrônicos são ricos em matérias-primas preciosas, porém grande quantidade tem sido desperdiçada. Em nível internacional, é recuperado apenas cerca de 15% do ouro presente nesses resíduos, enquanto o resto está sendo perdido. Ironicamente, o lixo eletrônico contém depósitos de metais preciosos estimados entre 40 e 50 vezes superior ao volume de minério extraído da Terra, de acordo com as Nações Unidas.

Economia circular: um modelo sustentável

Boneco circulando no símbolo de reciclagem e economia circular

O conceito de economia circular propõe, além da prática de reduzir, reciclar e reutilizar, ações de caráter restaurativo e regenerativo. Ao invés de um sistema produtivo linear, a explorar excessivamente os recursos naturais, produzindo bens para serem descartados, surge uma alternativa sustentável. O objetivo desse novo modelo é reinserir os resíduos na cadeia produtiva, visando à fabricação de novos produtos, em um processo contínuo e circular. 

O modelo sustentável de economia circular tem potencial para diminuir a geração de resíduos, evitar seu despejo ilegal e tratamento inadequado. Também promove a reciclagem e cria empregos no setor de remodelação e reciclagem, enquanto reduz a poluição ambiental. Portanto, oferece enormes oportunidades econômicas e de emprego, além de soluções ligadas à gestão sustentável de resíduos eletrônicos.

Dispositivos eletrônicos antigos contêm substâncias tóxicas, como chumbo, mercúrio, cádmio e cromo, bem como metais pesados, cujo processamento adequado é essencial para que não sejam liberadas no ambiente.

A depender do local onde você vive, existem oportunidades para reciclar seus dispositivos eletrônicos antigos. A melhor escolha é doar equipamentos de informática para serem remodelados ou reutilizados. Outras alternativas incluem locais de reciclagem de eletrônicos autorizados, eventos na área e programas corporativos de retirada.

Há ainda a proposta de logística reversa, referente ao conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos.

Segundo a ONU, atualmente, 66% da população mundial é coberta por leis nacionais de gerenciamento de resíduos eletrônicos. No entanto, nem sempre essa legislação é aplicada. Muitos desses países não têm metas mensuráveis de coleta e reciclagem, essenciais à efetividade das políticas.

Gestão sustentável dos resíduos eletrônicos

A proteção ambiental é um dos três pilares do desenvolvimento sustentável. Assim, o gerenciamento adequado de resíduos eletrônicos contribui com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável globais, conforme plano de ação proposto pela ONU, em sua Agenda 2030.

Uma boa gestão dos resíduos eletrônicos está relacionada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, principalmente: boa saúde e bem-estar; água limpa e saneamento; trabalho decente e desenvolvimento econômico; comunidades e cidades sustentáveis; consumo e produção sustentável; vida abaixo da água.

Conclusão

O aumento no consumo de resíduos eletrônicos desafia a elaboração de estratégias e políticas adequadas à sua gestão sustentável, visando reduzir efeitos negativos à saúde e ao ambiente. No nível do consumidor, a cultura do descarte pode ser substituída por ações em prol da redução, reciclagem, reutilização, regeneração e restauração.

Indústrias e setores de produção devem assumir responsabilidades com a poluição dos solos, do ar e dos rios, por intermédio de uma avaliação da quantidade e tipos de resíduos lançados ao ambiente. Isso impulsionará iniciativas a evitar danos ambientais.

As políticas devem incentivar os fabricantes a financiarem esforços de reciclagem. A iniciativa privada pode encontrar na gestão sustentável dos resíduos eletrônicos oportunidades de geração de emprego e renda. O poder público, por sua vez, consegue transformar soluções sustentáveis para o lixo eletrônico em benefícios sociais para trabalhadores do setor.

A gestão sustentável dos resíduos eletrônicos é responsabilidade compartilhada pelos geradores, poder público e consumidores.

O que você tem feito para descartar adequadamente seus equipamentos eletrônicos? Conhece experiências bem-sucedidas de reciclagem e restauração de eletrônicos? 

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