Como o Atlântico favorece as chuvas no Nordeste?


Por Letras Ambientais
sábado, 05 de maio de 2018


No último post, falamos sobre a influência da temperatura das águas do oceano Pacífico sobre as condições climáticas do Brasil, fundamentais para a definição das previsões. Após a publicação, vários leitores nos perguntaram sobre a influência do Atlântico nas chuvas do Nordeste.

A questão é muito importante, em função de a temperatura das águas do Atlântico também exercerem ação decisiva para definir se haverá ou não chuvas no Nordeste. Resolvemos elaborar este post para explicar melhor como isso funciona.

Inicialmente, vale lembrar que, com frequência, as secas no Nordeste têm sido automaticamente associadas ao El Niño, ou seja, ao aumento anormal das temperaturas da superfície do Pacífico. No entanto, o fenômeno não tem sido suficiente para explicar os longos períodos de falta de chuvas na região.

>> Leia também: Fim da La Niña: 7 razões para não se desesperar

Pesquisa no Semiárido

No livro “Um século de secas”, os autores analisaram a relação entre eventos de El Niño e de secas no Nordeste do Brasil, durante o período de 1901-2016. Nesse interstício de mais de um século, ocorreram 32 secas na região, e 30 eventos de El Niño. Apesar da similaridade no número de eventos climáticos (secas) e oceânicos (El Niño), em 23 casos (um total de 70%), houve associação direta entre secas e El Niños. Por outro lado, em nove eventos de seca (quase 30% deles) não foi registrada coincidência com a ocorrência de El Niño.

>> Leia também: Um século de secas no Semiárido brasileiro

Desse modo, embora fortes eventos de El Niño estejam associados a severas secas na área semiárida do Brasil, muitos deles não demonstraram tal relação. Ou seja, a correspondência do El Niño Oscilação Sul (Enos) com as chuvas na região ainda é deficitária.

Assim, como explicar os episódios de seca no Nordeste nos anos 1904, 1907, 1908, 1909, 1915, 1936, 1942, 2012 e 2013? Certamente, a resposta está na temperatura das águas do oceano Atlântico, que influenciam diretamente no regime de chuvas na região.

Em relação ao Nordeste, o mais importante para definir as condições climáticas é que o Atlântico esteja favorável, ou seja, que o Atlântico Sul esteja mais quente que o Atlântico Norte.

A seca extrema de 2012, no Nordeste brasileiro, recebeu forte influência dos padrões anômalos das temperaturas superficiais do oceano Atlântico. É claro que o Pacífico também foi um dos causadores da grande seca naquele ano, que afetou gravemente a população e a economia regional. A imagem acima, do satélite Meteosat-10, foi elaborada pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de satélites (Lapis), e apresenta o impacto da seca no Semiárido brasileiro naquele ano.

O livro “Um século de secas” validou essas imagens de satélites, demonstrando que durante a seca do século (período 2010-2016), no ano de 2012 ocorreu um dos eventos climáticos mais longos, intensos e abrangentes na região. Eventos de El Niño, associados a um clima mais quente do que o normal no oceano Atlântico Norte e mais frio no Oceano Atlântico Sul, influenciaram na posição latitudinal da ZCIT, limitando, assim, as chuvas na região.

Ventos a favor do Nordeste

Para explicar melhor, vamos discutir o principal sistema atmosférico atuante na região, no período de fevereiro a maio: a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). O termo é bastante comum nas previsões climáticas da região, inclusive muito utilizado nos telejornais e pelos meteorologistas. Trata-se de uma banda de nuvens que circunda a faixa equatorial do globo terrestre, formada principalmente pela confluência dos ventos alísios do Hemisfério Norte com os ventos alísios do Hemisfério Sul. Essa convergência dos ventos faz com que o ar, quente e úmido, ascenda, carregando umidade do oceano para os níveis mais altos da atmosfera, ocorrendo a formação das nuvens.

O vídeo acima, produzido pela Agência Europeia para Exploração de Satélites Meteorológicos (Eumetsat), apresenta as condições meteorológicas para março de 2018, com destaque para a ZCIT, localizada próxima a linha do Equador, em todo o globo. 

A ZCIT define se os nordestinos terão chuvas ou aqueles temidos períodos de seca. Quando o El Niño se manifesta, influencia no deslocamento da ZCIT para uma posição mais ao norte, impedindo a formação de chuvas no Nordeste e provocando intensas secas. Mas não é só o El Niño. A temperatura anormal das águas superficiais do Atlântico também é decisiva na definição das condições climáticas sazonais da região, por influenciar fortemente a posição da ZCIT, provocando déficit de chuvas.

>> Leia também: Semiárido brasileiro - por que a seca ainda é um desastre?

Dipolo do Atlântico

A imagem acima representa o dipolo do Atlântico, ocorrido em 2015, com as águas da superfície do Atlântico Norte mais quentes  e as do Atlântico Sul, cenário que provoca secas no Nordeste brasileiro. 

Embora ainda pouco estudado, se comparado ao Enos, o Atlântico exerce grande influência nas chuvas do Nordeste brasileiro. Em 1981, os pesquisadores Antonio Divino Moura e Priyadarshi Shukla já apontavam a estreita relação que sempre ocorre entre uma seca severa na região e o simultâneo aquecimento anormal da temperatura da superfície do Atlântico Norte e o resfriamento anômalo no Atlântico Sul tropical. Eles classificaram esse fenômeno como Dipolo do Atlântico.

Recentemente, pesquisadores têm reafirmado que a variabilidade das chuvas no Nordeste está ligada a localização e magnitude das anomalias da temperatura da superfície tanto do Pacífico quanto do Atlântico.

Para entendermos melhor: o Dipolo do Atlântico se constitui em uma gangorra térmica na região próxima do Equador, entre as águas do Atlântico Norte e do Atlântico Sul, que movimenta a ZCIT, de acordo com suas temperaturas. As bandas de nuvens carregadas, que formam a ZCIT, deslocam-se para a região onde as águas estiverem mais quentes.

Podemos ter várias situações dessa gangorra térmica: 1) Atlântico Norte mais quente que o Atlântico Sul; 2) Atlântico Sul mais quente que o Atlântico Norte; e 3) Situação de neutralidade, sem diferença relevante entre a temperatura das duas regiões.

Quando as porções equatoriais norte e sul do Atlântico estão com temperaturas diferentes, forma-se um dipolo. Para que aumentem as chances de um bom período de chuvas no Nordeste, é necessário que esse dipolo esteja mais favorável à descida da ZCIT, ou seja, as águas mais quentes no Atlântico Sul.

Conclusão

Fique atento, pois se no Brasil, um dos efeitos clássicos relacionados com a La Niña é o aumento das chuvas sobre o Nordeste, tão ou mais importante do que saber como está a temperatura no Pacífico Equatorial, é entender qual será a situação do Oceano Atlântico, que banha toda a região.

Como mencionado, a temperatura do Atlântico é responsável por regular a intensidade e o deslocamento de um dos mais importantes fenômenos atmosféricos que provoca quase toda a chuva do Nordeste, a ZCIT.

No último post, falamos sobre como, a partir de setembro, a condição da temperatura do Pacífico irá definir as condições climáticas no Brasil. O cenário ainda é de incerteza, de acordo com os atuais modelos climáticos. Mas é bom lembrar que o clima do Nordeste não depende apenas do Pacífico. O cenário mais favorável é quando as águas do Atlântico Sul estão mais quentes que o normal, e as do Pacífico estão mais frias.

Gostou do texto? Compartilhe com seus amigos:



Artigos Relacionados

Empresa

16 dicas que você precisa saber antes de utilizar seu drone

Clima e energia

Mudanças ambientais: 10 impactos sobre a Caatinga

Clima e energia

Energias renováveis: 10 motivos porque reduzem a crise

Inscreva-se

Deixe aqui seu e-mail e receba nossas atualizações.


Logo do Letras Ambientais

Facebbok Twitter Youtube Feed

contato@letrasambientais.com.br