Mudanças ambientais: 10 impactos sobre a Caatinga


Por Letras Ambientais
terça, 13 de fevereiro de 2018


Mudanças ambientais. Você já deve ter ouvido muito falar sobre esse assunto e nas suas consequências às populações e aos ecossistemas. Certamente, já se perguntou de que forma as propaladas alterações climáticas afetarão sua vida. Será possível conviver com esse processo, de forma sustentável? Quais serão seus impactos nas áreas semiáridas? E no caso da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro?

Esse post mudará sua visão sobre o quanto as mudanças ambientais estarão presentes em seu dia a dia, em um futuro breve, e como você poderá agir visando minimizar os seus efeitos. 

A Caatinga é considerada a área semiárida mais rica em biodiversidade do mundo. Dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA) indicam que nela há uma grande riqueza de espécies, com 932 variedades de plantas, 178 de mamíferos e 590 de aves. Do total, pelo menos 318 são endêmicas, ou seja, ocorrem somente no bioma. Este ocupa cerca de 11% do território brasileiro (844 mil km2), onde vivem quase 28 milhões de pessoas. Apesar da sua importância para o Brasil e o mundo, não tem sido foco de preocupações das políticas públicas de conservação e sustentabilidade ambiental no País.

Diversidade Ambiental da Caatinga.
Biodiversidade da Caatinga. Foto: ICMBio.

 

O bioma tem sido intensamente degradado, em razão das diversas pressões decorrentes de atividades humanas, sem o manejo adequado (agricultura de baixa tecnologia, pecuária extensiva e extrativismo insustentável). Atualmente, cerca de 25% da energia consumida pelos setores industrial e comercial do Nordeste ainda é oriunda da biomassa florestal da Caatinga, em forma de lenha, representando a segunda principal fonte energética da região.

Como consequência dos fatores naturais e antrópicos, cerca de 62% correspondem a áreas susceptíveis à desertificação no Brasil se encontram na Caatinga. Por outro lado, somente aproximadamente 1,5% do seu território está inserido em unidades de conservação ambiental de proteção integral. Essa situação se intensifica durante as secas extremas, quando há escassez na produção de alimentos e nos principais meios de subsistência locais, aumentando a degradação dos ecossistemas, cenário a se agravar ainda mais com as mudanças ambientais.

Por essa razão, selecionamos os 10 motivos pelos quais você deve se preocupar com o futuro da Caatinga diante das alterações ambientais.

1. Aumento do risco de seca

O processo de mudanças ambientais já está em curso e seus impactos serão sentidos em todo o Planeta nas próximas décadas, estimando-se para a partir da segunda metade do século 21. O consenso científico dos especialistas reunidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), é de que o fenômeno provocará aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos, em razão da elevação da temperatura na Terra.

Com essas consequências, as projeções dos pesquisadores situa a Caatinga como uma das regiões geográficas mais afetadas pelas novas condições ambientais, podendo sofrer uma redução de até 40% nas suas chuvas, impactando diretamente diversos setores sociais e produtivos.

2. Maior incidência de desastres naturais

De acordo com o WWF-Brasil, os eventos ambientais extremos produzem danos e impactos socioeconômicos generalizados, desdobrando-se em verdadeiros desastres naturais. Esses fenômenos expõem a vulnerabilidade da população humana, a inefetividade das políticas públicas e a fragilidade da infraestrutura dos diversos setores frente aos sistemas ambientais, alterando o funcionamento da economia e o bem-estar social.

Segundo o Centro Universitário de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (CEPED UFSC), os eventos ambientais extremos informados com maior frequência pelos municípios da Caatinga são relativos a estiagens e secas, seguidos por enxurradas, inundações e vendavais.

A seca é considerada um desastre crônico-silencioso, de caráter natural, cujos impactos ambientais e econômicos negativos afetam milhares de pessoas, sendo, muitas vezes, relegados pelos formuladores de políticas públicas. Sua extensão e frequência recorrentes prejudicam diversas atividades econômicas nos setores da agricultura, pecuária, indústria, serviços e comunidade em geral.

3. Intensificação do processo de desertificação

A Caatinga é um ambiente altamente susceptível à desertificação, processo caracterizado pela perda progressiva da cobertura vegetal, causada por ações antrópicas, como desmatamento e desflorestamento, associadas a intervenções naturais. Segundo dados do MMA, já foi desmatada cerca de 46% da sua área total. 

Esse fator aumenta a exposição dos solos aos processos erosivos, tornando as terras secas estéreis à produção agrícola, provocando intenso êxodo da população rural. A recuperação de áreas degradadas é considerada economicamente inviável e as alterações climáticas tornarão o processo de desertificação uma condição ambiental ainda mais grave.

Segundo o mapa abaixo, elaborado pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), os níveis de degradação ambiental, em relação às áreas totais dos estados do Semiárido brasileiro, estão distribuídos da seguinte forma: Alagoas (32,8%), Paraíba (27,7%), Rio Grande do Norte (27,6%), Pernambuco (20,8%), Bahia (16,3%), Sergipe (14,8%), Ceará (5,3%), Minas Gerais (2,0%) e Piauí (1,8%). 

Monitoramento ambiental
Mapeamento da desertificação. Fonte: Lapis.

 

4. Redução na produção de alimentos

De acordo com o 5º Relatório do IPCC (2014), as mudanças ambientais afetarão negativamente a produção agrícola do Brasil, em particular da Caatinga, dificultando o acesso à alimentação e a estabilidade nos preços. Dessa forma, diminuirá a segurança alimentar, especialmente de populações mais pobres em áreas urbanas e rurais. Projeções apontam até mais de 25% de perdas nas colheitas, no período de 2030-2049, em comparação com o final do século 20, a depender do nível de adaptação desenvolvido em cada região.

Além disso, em ambientes semiáridos, haverá redução na obtenção de renda com produção de alimentos nas áreas rurais, especialmente por parte de agricultores e pecuaristas com  recursos escassos.

Na Caatinga, onde cerca de 90% dos empreendimentos rurais agropecuários são oriundos da agricultura familiar, os impactos dessas alterações ambientais poderão afetar diretamente cerca de 7 milhões de pessoas, frequentemente encontradas em condições de extrema pobreza.

5. Agravamento da crise hídrica

De acordo com a ONU, as mudanças ambientais intensificarão a crise hídrica em diversas regiões do Planeta, afetando as populações humanas e os ecossistemas, em particular, devido às alterações previstas na sua qualidade e quantidade.

Os efeitos negativos desse novo cenário ambiental provocarão uma grande redução da disponibilidade de água superficial e subterrânea, acirrando a competição pelo recurso natural. O fenômeno representará um sério obstáculo à garantia dos direitos humanos à água, sendo necessário antecipar a consolidação de mecanismos eficientes de gestão e governança dos recursos hídricos, visando promover a justiça ambiental.

6. Maior risco de extinção das espécies

Ainda segundo o Relatório do IPCC, com as mudanças ambientais, grande número de espécies terrestres e aquáticas estará ameaçado, em razão do aumento na temperatura do Planeta, associado a fatores de risco já existentes, como a alteração dos habitats, sobre-exploração, poluição e espécies invasoras.

7. Aumento da pobreza

As mudanças ambientais irão dificultar a redução da pobreza, em função de diminuirem a produção de alimentos e limitarem os meios de subsistência locais, influenciando na segurança alimentar e criando novas situações de pobreza, sobretudo nos focos socialmente mais vulneráveis.

8. Desaceleração do crescimento econômico

O crescimento econômico nos diversos países também será limitado. Segundo o CEPED UFSC, no Nordeste brasileiro, o valor dos danos e prejuízos públicos e privados provocados por desastres naturais de origem climatológica, no período de 1995-2014, correspondeu a R$ 47 trilhões. Desse total, a maior parte, cerca de 75%, está diretamente relacionada às condições ambientais de estiagens e secas.

Os especialistas recomendam, como primeiro passo para adaptação às futuras mudanças ambientais, a redução da vulnerabilidade e da exposição das regiões à variabilidade climática atual. Na Caatinga, evidencia-se uma situação de despreparo, vulnerabilidade e exposição à seca por parte de diversos setores sociais e econômicos, a exemplo do recente evento climático ocorrido no período 2010-2016.

Faltam também políticas e mecanismos relacionados à adaptação ambiental e mitigação dos efeitos da seca, bem como à gestão de desastres naturais, integrada ao planejamento e tomada de decisão.

9. Aumento do desmatamento

O aumento na frequência de eventos ambientais extremos elevará as pressões antrópicas sobre a Caatinga. Um dos motivos é o fato de a população encontrar na floresta outras fontes para garantir sua subsistência, em termos de alimentação e produção alternativa de renda.

10. Aceleração das mudanças ambientais

Mudanças climáticas
Mudanças ambientais.

Os países têm enfrentado dificuldades em reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. Todavia, essa diminuição é fundamental para evitar alterações profundas no clima da Terra. Os Estados Unidos, um dos maiores poluidores do mundo, possivelmente sairão do Acordo de Paris, tratado climático que reúne os compromissos de 194 países em fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima. O aumento da temperatura na Terra influenciará ecossistemas secos e vulneráveis às alterações ambientais, como é o caso da região semiárida do Brasil.

Assim, diante dos riscos ocasionados pelas mudanças ambientais e o aumento da ocorrência de desastres naturais, é fundamental aos governos e sociedades implementarem ações estruturais e não estruturais de adaptação e mitigação dos impactos de eventos climáticos extremos. Que desenvolvam mecanismos e políticas de monitoramento e conservação ambiental da Caatinga, adaptação das populações e dos setores econômicos às secas e fortalecimento dos sistemas de gestão de recursos hídricos.

Você também tem um papel importante nesse processo. De olho nas mudanças ambientais, também pode ajudar a retardar o aumento da temperatura na atmosfera, evitando a destruição e devastação da Caatinga, bem como o desperdício e a poluição hídricas. Somos parte da solução!

Esses assuntos são tratados com profundidade no livro Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?, no qual os autores analisam o panorama de um século de políticas ambientais contra os impactos da seca na Caatinga. Você mudará sua visão sobre as razões que levaram à tradicional inefetividade das soluções para a seca no Semiárido brasileiro.

A obra também destaca as medidas a serem adotadas por empresários e gestores de políticas hídricas com o intuito de mitigar os impactos das secas na região, diante do possível cenário de mudanças ambientais.

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