O El Niño afetará o clima em 2019?


Por Letras Ambientais
quinta, 29 de novembro de 2018


O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno oceânico já é um antigo conhecido da população, em função de alterar o clima regional e global nas áreas tropicais.

Um aspecto pouco conhecido é que existem dois tipos diferentes de El Niño, com impactos distintos no clima do Planeta: o El Niño Canônico e o El Niño Modoki.

Essas diferenças ocorrem porque nem sempre a elevação da temperatura das águas do Pacífico Equatorial ocorre de maneira uniforme. Esse aquecimento irregular do Pacífico leva à formação do El Niño Modoki, cujos efeitos são mais brandos, em grande parte do globo. Nessa situação, cabe analisar as águas da região mais próxima do Peru, conhecida por Niño 1+2, a influenciar diretamente as condições climáticas do Brasil.

Quando as águas estão aquecidas em toda a extensão do Pacífico Equatorial, ocorre a formação do El Niño canônico ou clássico.

Há um ciclo irregular do fenômeno El Niño Oscilação Sul (ENOS), com períodos alternados de condições das águas superficiais do oceano Pacífico mais quentes que o normal (El Niño) ou mais frias que a média (La Niña). A tendência é de o El Niño ocorrer a cada 4 a 5 anos, geralmente com duração de 12 a 15 meses. Episódios mais fortes de El Niño ocorrem a cada 10 a 15 anos. Episódios de La Niña podem durar de 1 a 3 anos.

Neste post, você vai entender os principais impactos do El Niño Canônico ou Modoki, como o fenômeno influencia o clima nas regiões brasileiras e a previsão climática sobre a possibilidade da volta do El Niño em 2019.

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Como serão as chuvas nas regiões brasileiras em 2019?

Efeitos do El Niño canônico no clima global

 

No Brasil, o El Niño Canônico ou clássico provoca muita chuva sobre a região Sul e seca intensa no Nordeste. No Sudeste, a influência desse tipo de El Niño está mais relacionada ao aumento das temperaturas, não influenciando diretamente no volume de chuvas.

Quando ocorre o El Niño do tipo modoki, os impactos são diferentes nas condições climáticas das regiões brasileiras. O Sudeste recebe maior volume de chuvas, enquanto o Sul e o Nordeste mantêm as chuvas em torno do normal, com volumes na média ou abaixo da média.

Durante a atual primavera, o Pacífico vem passando por uma fase de transição. Desde o último mês de setembro, observa-se um aquecimento progressivo das temperaturas das suas águas. 

Apesar da chuva tropical brasileira ter começado mais cedo, situação típica de primavera sob aquecimento do Pacífico, a temperatura do ar no Sul e Sudeste está baixa. Até agora, não fez calor no Centro e Sul do Brasil

Os principais centros internacionais de Meteorologia têm gerado modelos climáticos que mostram possibilidade acima de 88% para o desenvolvimento de um novo episódio do evento El Niño, no período entre o final da primavera de 2018 e início do verão de 2019. Uma novidade foi a afirmação de que o fenômeno também deverá se prolongar ao longo do outono de 2019. 

A maior parte dos modelos preveem aquecimento leve (1 oC) no oceano Pacífico, no prazo de 1 a 2 meses. A previsão por consenso entre o Climate Prediction Center, ligado ao National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), e o International Research Institute (Columbia University), adota 88% de chance para a ocorrência de um El Niño fraco ainda este ano. 

Alguns centros de monitoramento afirmam que um El Niño já está estabelecido. Segundo o meteorologista Humberto Barbosa (Lapis), em algumas regiões do oceano Pacífico, já está configurado os sinais característicos de um El Niño do tipo Modoki, com intensidade fraca ou moderada. 

A imagem da temperatura da superfície do mar, disponibilizada pelo National Center Environmental Prediction (NCEP) neste link, é elaborada a partir de informações de satélites e dados obtidos de navios e boias oceanográficas. As cores em tons azul representam temperaturas mais frias e as cores em tons amarelo e vermelho, temperaturas mais quentes. Essas informações são atualizadas diariamente.

As atuais projeções indicam que, somente no verão de 2019, o aquecimento será em todo o Pacífico, quando ocorrerá uma configuração mais canônica ou clássica do El Niño. Os indicadores oceânicos mostram que, no período de janeiro a março de 2019, o fenômeno estará em seu ápice e, desta vez, com águas aquecidas em toda a extensão do Pacífico Equatorial.

Caso o El Niño seja confirmado, possivelmente ocorrerá em intensidade baixa ou moderada. Mesmo assim, haverá diferentes impactos nas regiões brasileiras, em 2019. O fenômeno mudará o padrão de chuvas e temperaturas para o Brasil neste verão e ao longo de todo o primeiro semestre de 2019.

No Norte e Nordeste, regiões onde choveu com mais frequência e intensidade no verão de 2018, a tendência é de chuva irregular em 2019, especialmente entre fevereiro e março. Dessa forma, tudo indica que o El Niño poderá voltar a provocar seca no Nordeste no final deste ano e início de 2019. Para uma análise completa sobre a influência do El Niño durante a última grande seca no Semiárido brasileiro, recomendamos a leitura do Livro "Um século de secas"

Isso afetará muito o volume das águas dos reservatórios para abastecimento das cidades e para produção de energia nas hidrelétricas. Por outro lado, haverá aumento na produção de energia eólica no Nordeste, região que concentra 85% da geração do País, em função do aumento da velocidade dos ventos, decorrente do El Niño. Este fenômeno provoca grandes mudanças nos padrões de chuvas tropicais, pressão atmosférica e ventos.

>> Leia também: Nordeste gera 85% da energia eólica do Brasil

A atual seca que atinge o Nordeste afeta o nível dos reservatórios e compromete o abastecimento de água. Em muitos municípios do Semiárido brasileiro, a água só chega em caminhões-pipa. Os reservatórios da região fecham outubro abaixo de 26%, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A tendência apontada pelos modelos climáticos é de chuva mais irregular, especialmente entre fevereiro e março.

>> Leia também: Uma radiografia da seca nos estados do Nordeste, em mapas

Outro impacto negativo do El Niño é o aumento das queimadas nos biomas brasileiros, como Amazônia, Cerrado e Caatinga.

A região de Matopiba, considerada a última fronteira agrícola do País, que reúne territórios do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, deve sofrer com os baixos acumulados de chuva. Todavia, menos do que em safras passadas, onde a seca prejudicou severamente a produção das culturas agrícolas dessa região, como a soja e o algodão. 

O El Niño deve trazer mais chuvas para Santa Catarina e Paraná, avançando para São Paulo e Mato Grosso do Sul. Lembrando que os três últimos estados sofreram com uma estiagem prolongada iniciada em fevereiro de 2018, em alguns municípios paulistas e, posteriormente, atingiu Paraná e Mato Grosso do Sul. Apesar do menor risco de estiagem, as regiões Sudeste e Centro-Oeste devem registrar menos invernadas, aqueles dias fechados, chuvosos e com temperatura baixa. 

Com relação às temperaturas, o Brasil terá um verão 2019 mais quente que a mesma estação passada, com calor mais persistente ainda em dezembro de 2018.

El Niño e altas temperaturas podem afetar a saúde da população

O El Niño tende a aumentar a temperatura global, liberando calor do mar para a atmosfera. Pesquisadores da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, descobriram uma aparente relação entre o El Niño, registrado entre 2015 e 2016, um dos mais fortes dos últimos anos, e a grande epidemia de zika que se espalhou pelo Brasil, principalmente na região Nordeste.

O vírus da zika é transmitido por mosquito das espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus. Pela descoberta científica da associação entre o vírus da zika e os casos de microcefalia em bebês no Brasil, em 2016, a doença foi considerada questão de "Emergência de Saúde Pública de Preocupação Internacional", pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os cientistas explicaram que o mais provável é que o El Niño tenha criado as condições climáticas favoráveis à enorme proliferação dos mosquitos causadores da epidemia de zika, em diversas partes do mundo. Um longo período de seca, seguido por meses de muita chuva, e junto com o aumento das temperaturas, estimularam a proliferação dos mosquitos, aumentando a transmissão da doença.

O El Niño também provoca aumento das temperaturas em diversas regiões do Planeta, como é o caso do Nordeste brasileiro. Dessa forma, as ondas de calor provocadas pelo fenômeno podem afetar a saúde da população, sobretudo mais vulneráveis, como idosos e bebês, cujos organismos possuem menos capacidade de adaptação e defesa.

Muitos países já se preocupam com os problemas de saúde ligados à mortalidade em ondas de calor, como é o caso da Colômbia, Filipinas, Índia, Grécia, Japão, Rússia, Canadá e diversos países do Hemisfério Norte. Recentemente, eles foram afetados por fortes ondas de calor que levou milhares de pessoas à morte e deixou dezenas de milhares com doenças ligadas ao calor.

Entre as doenças mais comuns provocadas pelo calor, estão: insolação, desidratação, edemas e problemas musculares. Altas temperaturas também agravam problemas cardíacos, pulmonares, circulatórios e dos rins. A população dos países de baixa renda é a mais afetada com esses extremos de temperatura, em função da falta de infraestrutura para enfrentar o problema.

As mortes causadas por ondas de calor poderão aumentar nas próximas décadas, caso não sejam tomadas providências de adaptação às mudanças climáticas. O Brasil está entre os países do mundo mais afetados pelas altas temperaturas.

Desde o início de novembro de 2018, as maiores temperaturas e os menores níveis de umidade do País estão sendo observadas em estados do Nordeste

Nos últimos dias, o calor intenso de 40°C ou mais vem sendo observado no interior do Piauí, do Maranhão, de Pernambuco, da Paraíba, de Alagoas e da Bahia. No mesmo período, os menores níveis de umidade registrados foram de 18% no interior de Pernambuco e 20% no interior de Alagoas. 

A explicação é que uma massa de ar seco predomina sobre a maior parte da região Nordeste, dificultando a formação de nuvens de chuva. Com pouca ou quase nenhuma nuvem no céu e sob forte calor, as temperaturas disparam, o que é normal para esta época do ano. Mas, até agora, por incrível que pareça, nenhuma cidade brasileira elaborou um plano emergencial para lidar com o calor.

O maior problema do calor para a saúde não é o pico de temperatura mais elevada, mesmo que acima dos 40ºC. O grande risco é quando, ao longo de pelo menos três dias consecutivos, a temperatura máxima passa dos 36ºC e a mínima não cai abaixo dos 21ºC. Quando isso ocorre, o corpo não consegue se resfriar e tende ao superaquecimento, o que pode levar a paradas cardíacas e derrames.

Dessa forma, a ocorrência de El Niño, associada aos impactos das mudanças climáticas, poderão tornar as ondas de calor um problema de saúde pública no Brasil.

El Niño pode voltar a afetar a seca no Nordeste

O El Niño tem trazido consequências devastadoras em algumas regiões brasileiras. Dentre os impactos típicos do El Niño para o Nordeste do Brasil, está uma condição climática mais seca, durante o período de março a maio, ou seja, quando deveria ocorrer as chuvas na região. Por outro lado, o La Niña provoca o aumento das chuvas no Nordeste.

No Semiárido brasileiro, conforme demonstrado na obra “Um século de secas (Editora Chiado, Portugal), no período de 2012-2017, os impactos das secas provocaram colapso no abastecimento de água da região e nas principais atividades econômicas locais, como agricultura e pecuária.

A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema atmosférico atuante no Semiárido brasileiro, no período de fevereiro a maio, recebe influência direta do El Niño. Este fenômeno influencia no deslocamento da ZCIT para uma posição mais ao norte, impedindo a formação de chuvas no Nordeste do Brasil e provocando secas intensas. Seu inverso, o La Niña, ocasiona o resfriamento atípico das águas do Pacífico, aumentando as chuvas na região.

Mas não é apenas o oceano Pacífico que influencia nas chuvas no Nordeste do Brasil. A temperatura da superfície do oceano Atlântico exerce grande influência nas condições climáticas da região, através da formação de um fenômeno conhecido como Dipolo do Atlântico.

>> Leia também: Como o Atlântico favorece as chuvas no Nordeste?

Com isso, mesmo ocorrendo um evento de El Niño intenso no oceano Pacífico, se o oceano Atlântico Sul estiver aquecido, os impactos do El Niño no clima do Nordeste brasileiro serão menores. Por outro lado, quando o El Niño é associado a uma condição das águas do Atlântico Sul frias e a um clima mais quente do que o normal no oceano Atlântico Norte, a seca será mais intensa.

As condições climáticas do Semiárido dependem, em grande medida, das influências recebidas pela posição latitudinal da ZCIT. A seca extrema de 2012 parece ter sido causada principalmente por padrões anormais nas temperaturas superficiais dos oceanos Pacífico e Atlântico.

Para quem tem interesse em compreender melhor o impacto do El Niño nas secas do Semiárido brasileiro, recomendamos a análise completa realizada no Livro “Um século de secas”, publicado pela Editora Chiado (Portugal). Em parceria com o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), a obra aprofunda a questão climática na região, com base no monitoramento por satélites das áreas mais secas do Brasil. Para adquirir o Livro, acesse o link da promoção.

Situação atual da seca no Nordeste brasileiro, em mapas

A estação chuvosa no Semiárido brasileiro ocorre nos meses de fevereiro a maio. É nesse período que há influência do ENOS (La Niña ou El Niña) nos padrões de chuvas na região.

O período anterior é chamado de pré-estação, compreendendo os períodos de dezembro a janeiro, quando as chuvas não têm relação com os oceanos, mas são oriundas de fenômenos ou perturbações na atmosfera, como vórtices ciclônicos.

Nos demais meses do ano, a seca é característica natural comum ao Semiárido brasileiro. Nesse período, praticamente não cai chuvas na região ou ocorrem de forma reduzida e má distribuídas.

No ano passado, na estação seca, predominou a influência da La Niña no Semiárido brasileiro. Todavia, este ano, como estamos em uma situação de neutralidade no oceano Pacífico, em transição para um possível El Niño, as chuvas foram ainda mais limitadas e má distribuídas. 

O Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) realiza o monitoramento por satélite da situação atual da seca no Nordeste brasileiro, além de estados como Minas Gerais e Distrito Federal).

De acordo com a imagem de satélite acima, observa-se como, em grande parte da região semiárida, a umidade dos solos encontra-se atualmente abaixo de 10%, sinalizando uma situação de intensa seca.

A condição da umidade dos solos também se reflete com a situação da cobertura da vegetação da região. Nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e grande parte da Bahia, predomina atualmente uma situação de seca bastante crítica.

Observe, abaixo, na imagem de satélite da cobertura vegetal. As áreas em vermelho e amarelo, significa vegetação seca, enquanto as áreas verdes mostram a recuperação da caatinga

Por outro lado, em todo o Sudoeste da Bahia, Minas Gerais e Distrito Federal, as chuvas predominam desde outubro de 2018, em razão da influência de frentes frias. Já no Maranhão e no Leste do Piauí, o aumento da umidade na Amazônia tem influenciado a umidade dos solos, a recuperação da vegetal. Veja os detalhes no mapa das chuvas, imagem de satélite referente ao período de 03 a 08 de novembro de 2018.

Conclusões

Um El Niño fraco ou moderado já se estabeleceu em algumas áreas do oceano Pacífico e influenciará a condição climática de diversas regiões do Planeta. A partir de fevereiro de 2019, se o El Niño se intensificar, será fundamental que o oceano Atlântico Sul esteja aquecido, para minimizar os impactos do El Niño nas chuvas do Nordeste. 

O monitoramento contínuo das condições climáticas do Semiárido brasileiro é importante para o planejamento das principais atividades econômicas da região e para facilitar a tomada de decisão por parte dos gestores de políticas nos municípios.

O setor produtivo ligado à agricultura, pecuária, indústria e comércio tem grande interesse nesse tipo de informação meteorológica. Nas próximas semanas, iremos atualizar este post com as novidades sobre a influência do fenômeno El Niño no clima do Nordeste brasileiro.

Na sua opinião, o Brasil está preparado para enfrentar mais um El Niño e seus impactos (seca, excesso de chuvas, altas temperaturas)? Você acha que deveria haver planos de contingência específicos para o País lidar com as altas temperaturas?

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