Pesquisa mostra como seca e ação humana alteram fisionomia da Caatinga


Por Letras Ambientais
domingo, 06 de janeiro de 2019


Até que ponto as condições climáticas do Semiárido afetam a fisionomia da Caatinga? Esta vegetação depende exclusivamente das chuvas para responder, recuperar sua biomassa e reverdecer? Como a seca influencia as condições biológicas da Caatinga? Em geral, essas perguntas costumam receber uma resposta imediata e linear, supondo que a vegetação responde diretamente às chuvas.

No entanto, uma pesquisa inédita que acabou de ser publicada no Journal of Photogrammetry and Remote Sensing (ISPRS), um dos periódicos internacionais mais respeitados na área de Sensoriamento Remoto, mostra que a questão é bem mais complexa e desenvolveu uma metodologia para diferenciar a influência do clima e da ação humana na fisionomia da Caatinga.

O artigo Assessment of Caatinga response to drought using Meteosat-SEVIRI Normalized Difference Vegetation Index (2008-2016) identificou a vulnerabilidade ecológica do bioma Caatinga às variações climáticas, baseada na análise de produtividade e dinâmica da vegetação em relação aos padrões de chuvas, com particular ênfase para os distúrbios e magnitude dos efeitos da seca de 2012-2016.

A pesquisa mostrou a influência da seca de 2012-2016 na dinâmica da vegetação, avaliada através de uma metodologia inédita, desenvolvida especificamente para identificar os efeitos da perturbação. Essa metodologia utiliza a abordagem da análise de séries temporais de imagens do satélite Meteosat para caracterizar a dinâmica da vegetação, identificando a ocorrência e amplitude de distúrbios.

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Os resultados sugerem que algumas áreas do bioma Caatinga podem estar particularmente susceptíveis a processos de desertificação, provavelmente impulsionada pelas secas recentes e facilitada pelas perturbações acumuladas ao longo do tempo, decorrentes de impactos humanos e mudanças no uso da terra.

Degradação ameaça resiliência da caatinga à seca

O pesquisador Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS), é um dos autores do estudo e ressaltou como essa metodologia permite avaliar a complexidade da resposta da vegetação da Caatinga às condições climáticas. “A caatinga preservada responde diretamente à umidade dos solos, ou seja, se ocorrem chuvas hoje, com cerca de 11 dias, a vegetação costuma ficar verde. Mas existem casos de plantas que ficam verdes, mesmo sem haver um efeito climático, como a ocorrência de chuvas”.

O avanço tecnológico alcançado na pesquisa permite avaliar outros fatores, como tipos de solos, altitude, dentre outros sinais de superfície, e mostra que o processo não é linear, do ponto de vista da resposta da vegetação. Barbosa também destacou que existem áreas da caatinga que responde à irrigação ou a agricultura irrigada, permanecendo verdes, mesmo em períodos de longas secas.

“Em função de a pesquisa ter focado um longo período de seca nos últimos anos, foi possível detectar áreas com tendência a permanecerem verdes, mesmo em períodos de seca. Por outro lado, permitiu identificar um crescente processo de degradação em terras da caatinga, que também afeta a recuperação da vegetação, para além do sinal climático”, completa.

As plantas invasoras e áreas irrigadas estão entre as que apresentam maior resiliência às secas. Por outro lado, a metodologia detecta outras mudanças no uso dos solos, que mascaram a seca vegetativa. Por exemplo, uma imagem de satélite, baseada no Índice de vegetação, pode mostrar uma área de vegetação seca, mas que se trata de solos em processo de desertificação. A ação humana, associada às intempéries climáticas, perturbaram a vegetação em um nível de gravidade que ela não apresenta mais condições de se recuperar, mesmo que ocorram chuvas suficientes.

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Tecnologia permite detectar secas com precisão

A pesquisa consolida o produto Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI), do satélite Meteosat, cujo algoritmo foi elaborado desde 2008, pelo LAPIS, juntamente com o Instituto de Meteorologia da Turquia.

A tecnologia ainda era inexistente na Agência Europeia para Exploração de Satélites Meteorológicos (EUMETSAT). A partir da publicação desse artigo, o produto passou a ser disseminado pela sistema EumetCast, da Eumetsat, para África e América do Sul.

Para identificar como seca e ação humana alteram a fisionomia biológica da caatinga, os pesquisadores desenvolveram uma tecnologia que integra ferramentas e análises estatísticas aplicadas à leitura das informações sobre a vegetação. Uma das vantagens do método é que o produto SEVIRI NDVI tem grande potencial na detecção de secas.

As vantagens desse avanço científico é fortalecer o monitoramento e a caracterização das respostas ecológicas a eventos de seca em todo o bioma Caatinga, em paralelo com previsões de impactos futuros das mudanças climáticas. Dessa forma, permite-se detectar, de forma precoce, as regiões que se aproximam de um ponto de desequilíbrio ecológico, em direção à desertificação. 

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Para Humberto Barbosa, o uso das imagens SEVIRI NDVI traz uma nova perspectiva para o monitoramento da cobertura vegetal no Semiárido brasileiro. “Elas têm sido uma importante aliada para o monitoramento da seca na região, e o LAPIS possui uma série de ferramentas para fazer esse acompanhamento. Levando em conta os problemas de seca e estiagem enfrentados no Nordeste do Brasil, nos últimos anos, e os prejuízos causados à sua economia, essa nova metodologia permite monitorar as condições climáticas, em tempo quase real, e com melhor acurácia”, completa.

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Secas e capacidade de resposta da vegetação

O artigo também analisou a seca plurianual, no Semiárido brasileiro, no período de 2012 a 2016, considerado os cinco anos mais críticos, em termos de totais de chuvas, desde 1901. Durante o quinquênio, com o transcorrer dos anos, identificou-se o progressivo agravamento dos efeitos da seca.

A imagem acima mostra um panorama dos eventos de secas e chuvas no Semiárido brasileiro, no período de 1901-2016.  Os valores iguais a zero indicam um padrão normal de chuvas, enquanto valores negativos mostram ocorrência de secas ou chuvas abaixo do normal. Já os valores positivos indicam um volume de chuvas acima do normal.

Apesar de os períodos secos serem relativamente comuns na Caatinga, há uma preocupação crescente com a resiliência ou a capacidade de resposta satisfatória da vegetação a esses eventos climáticos, uma vez que é provável que sejam cada vez mais frequentes e extremos, em função das mudanças climáticas. Sob essas condições, mesmo com respostas rápidas à seca, fator característico da vegetação em ambientes áridos, pode-se falhar em protegê-la de impactos a longo prazo.

Para uma análise completa sobre as secas e sua história no Semiárido brasileiro, bem como as políticas hídricas implementadas ao longo do período de 1901-2016, recomendamos a leitura do Livro “Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro” (Editora Chiado, Portugal).

A Figura acima mostra a linha do tempo com a história das secas na região e o Livro “Um século de secas” apresenta o detalhamento sobre as políticas adotadas, em cada ano, como capacidade de resposta governamental para fazer frente aos efeitos das secas. Para adquirir o Livro, clique aqui.

Leia a publicação completa, clicando aqui

Conclusões

O impacto da seca 2012-2016, em função da excepcional redução nas chuvas, influenciou a dinâmica da seca vegetativa da Caatinga, que apresentou uma forte queda na atividade ecossistêmica, contrastando com lavouras irrigadas, pouco afetada pela seca.

Ao comparar a relação entre a atividade da vegetação e o volume de chuvas, em áreas específicas da Caatinga, a pesquisa permitiu identificar uma resposta tardia da Caatinga às chuvas, em um período muito maior do que anteriormente era possível. Em condições normais, quanto mais sadia a vegetação, mais rápida é a capacidade de responder positivamente às chuvas.

A pesquisa concluiu que a resiliência da caatinga conservada tem diminuído, enquanto as áreas agricultáveis aumentaram, acarretando maior degradação dos solos.

Você percebe que a vegetação da caatinga tem tido menor resiliência à seca e demorado mais tempo para reverdecer? Esses casos têm sido mais comuns em áreas degradadas?

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