Que fenômeno ameaça engolir o bairro do Pinheiro, em Maceió?


Por Letras Ambientais
terça, 12 de março de 2019


Às margens da lagoa Mundaú, no bairro Muntage, em Maceió (AL), há mais de duas décadas vive a senhora Eliene Silva, de 40 anos. Sua residência fica bem próxima a duas minas de exploração de salgema. De frente para a rua onde mora, é possível ver, além da linha do trem e da imponente Lagoa, um pequeno trecho de floresta, onde estão instaladas duas grandes torres e dois poços de mineração. A atividade econômica iniciou ali ainda nos anos 1970 e parece continuar intensa na região.

Há um ano, logo após o tremor, Eliene viu aparecerem pequenas rachaduras em sua casa, que aos poucos foram aumentando, tornando-se uma preocupação comum a toda população. O bairro Mutange fica ao lado do bairro do Pinheiro, epicentro de um fenômeno geológico, ainda desconhecido, que ameaça o afundamento dos solos e o risco de ocorrer um desastre natural na região.

Com uma população atual de mais de 20 mil pessoas, o bairro do Pinheiro teve sua ocupação inicial próxima à lagoa Mundaú, que, ao lado da Manguaba, forma um extenso complexo que originou o nome do estado de Alagoas.

As fortes chuvas de verão, ocorridas em fevereiro de 2018, seguida de um tremor de terra de 2,4 pontos na escala Richter, em março do mesmo ano, intensificaram o aparecimento de rachaduras em residências do bairro, bem como afundamentos de terra em vias públicas.

O que poderia ser apenas um evento isolado se transformaria em um verdadeiro pesadelo para a população. Um ano depois, em março de 2019, o fenômeno já afetou pelo menos 2.480 imóveis, em uma área expressiva do bairro. A Defesa Civil interditou centenas de moradias, ameaçadas de serem tragadas pelo solo. Assustados, cada dia mais moradores abandonam suas moradias e a área do bairro atingida pelo fenômeno está se tornando deserta. 

Desde fevereiro de 2018, geólogos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) investigaram as possíveis causas do sismo e das fraturas no Pinheiro. Todavia, somente em 28 de dezembro, o governo federal reconheceu Situação de Emergência no bairro, protocolo que depende da solicitação inicial da Prefeitura de Maceió, através da Defesa Civil. 

Em 11 de janeiro de 2019, o presidente da República determinou a adoção de ações necessárias para a identificação do fenômeno. A partir de então, órgãos governamentais, como o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) e a Agência Nacional de Mineração (ANM) seguem um rígido cronograma de estudos no bairro, com o intuito de descobrir as reais causas do fenômeno. 

A causa do fenômeno continua um mistério para a população e ainda intriga os especialistas. Muitas são as dúvidas para esclarecer a ameaça que pode provocar um desastre socioambiental em Maceió, com risco de provocar enormes danos humanos e materiais.

Neste post, iremos descrever as 4 principais hipóteses, defendidas pelos órgãos que conduzem as investigações, para explicar o risco de afundamento no bairro Pinheiro. Os motivos do problema podem ser de origem natural e/ou de atividades humanas.

1) Características dos solos da região e forma de ocupação do bairro

Sensores instalados no solo do Pinheiro, para captar ondas acústicas.

A primeira hipótese para explicar o fenômeno do deslocamento de massa no Pinheiro está relacionada à forma de ocupação do bairro e às características geotécnicas dos solos.

Até o final de março de 2019, será feito o levantamento histórico das mudanças ambientais realizadas no terreno, desde o processo inicial de ocupação. É o caso de aterros, alteração da morfologia de cabeceiras de drenagem, aterros de lagoas e áreas embrejadas no tabuleiro. Em seguida, serão analisados os levantamentos feitos a uma profundidade de 40 metros, na área das moradias mais atingidas.

2) Exploração mineral da salgema

Minas de exploração de salgema, em Maceió. Fonte: ANP. Elaboração: Lapis.

Uma segunda hipótese para o problema das rachaduras e afundamentos no bairro do Pinheiro diz respeito aos impactos da mineração de salgema na área.

Desde 1975, ocorre intensa atividade de mineração às margens da lagoa Mundaú, nos bairros do Pinheiro, Mutange e Bebedouro, para extração de salgema, matéria-prima utilizada na fabricação de soda e cloro. O mineral é explorado pela atual Braskem, petroquímica controlada pelo grupo Odebrecht e pela Petrobrás.

Desde então, foram perfurados pelo menos 35 poços para exploração de salgema. Segundo informações divulgadas pela Braskem, pelo menos 32 desses poços de extração do mineral já foram desativados, incluindo sete do bairro do Pinheiro, estando lacrados por um sistema de pressão de água. Encontra-se em operação apenas três minas, localizadas no Mutange.

Em janeiro de 2019, o Instituto do Meio Ambiente (IMA) de Alagoas suspendeu a licença ambiental da Braskem para exploração do salgema, no bairro do Pinheiro, a pedido do Ministério Público estadual. A suspensão ocorreu em função de ainda não haver um laudo conclusivo sobre as causas do fenômeno. A empresa afirma que as extrações estão suspensas no bairro do Pinheiro, desde maio de 2018. Todavia, a partir de agora, não há mais autorização para voltarem a funcionar.

A Braskem nega qualquer relação da mineração de salgema com o fenômeno geológico no Pinheiro. A empresa também informa que está realizando estudos complementares para ajudar a esclarecer as causas das rachaduras. Porém, uma das hipóteses consideradas pelos especialistas para explicar o fenômeno no bairro é o impacto ambiental provocado por essa atividade econômica.

Em visita ao bairro, observamos inúmeras placas de venda ou de aluguel dos imóveis. Muitas residências estão em reforma para corrigir as rachaduras e fissuras, provocadas pelo fenômeno da instabilidade do solo.

Bairro do Pinheiro pode ficar deserto, com a saída dos moradores.

A senhora Eliene da Silva, cuja história abriu essa reportagem, afirma que as rachaduras em sua casa começaram desde que houve o tremor de terra, no início de 2018. Ela e mais dois moradores do bairro se mostraram bastante preocupados com a situação. “Até agora, a gente não recebeu nenhum tipo de auxílio social, porque moramos aqui, na parte de baixo do Mutange, eles só falam no Pinheiro, que fica mais na parte de cima, mas toda a exploração de salgema se inicia aqui, a perfuração começa bem abaixo do nosso bairro. Então, se for cair, vai cair tudo”, ressalta.

Em entrevista no dia 10 de março de 2019, a moradora se mostrou apreensiva pelo fato de as minas de salgema continuarem funcionando ali. “É aqui no Mutange onde tem as torres da Braskem. Embora eles coloquem ‘não estamos trabalhando’, todo dia tem gente lá, de dia e de noite, extraindo a salgema e caminhões transportando a salmoura. Na minha concepção, parece até que estão trabalhando ainda mais. É preocupante porque se vier a acontecer uma tragédia, a maioria da população pode morrer”, ressaltou.

A salgema pertence ao grupo dos evaporitos, rochas sedimentares formadas a partir da cristalização de minerais submetidos a clima seco, pela elevada evaporação da água salgada. A bacia evaporítica marginal brasileira estende-se de São Paulo a Alagoas, com depósitos de anidrita, gipsita, salgema e sais de potássio e magnésio.

Os depósitos de salgema são explorados a cerca de 900 metros de profundidade. Para extração do mineral, é utilizado o método de lavra por dissolução, um processo tecnológico considerado obsoleto, mas com alta eficiência econômica, pelo seu baixo custo de exploração. O vídeo abaixo mostra uma mina de exporação em funcionamento no bairro Mutange, em Maceió.

As estruturas de salgema são “rochas” salinas solúveis. O método de lavra por dissolução consiste em escavar o poço e injetar água aquecida para que a “rocha” volte ao seu estado líquido, tornando-se uma salmoura a ser extraída.

Segundo uma pesquisa realizada, em 2017, por Sander Morais dos Santos, as rochas salinas possuem propriedades físicas e mecânicas e, dependendo do método utilizado para extração, respondem às modificações do meio.

Com o tempo, a extração provoca rupturas e deformações permanentes na estrutura dos materiais salinos, em função da tensão provocada por pressão e temperatura. O fenômeno, denominado de fluência, causa movimentos de discordâncias e deslizamentos intracristalinos.  

Nesses casos, ainda que se utilize de preenchimento da escavação com fluido, revestimento metálico ou concreto, no caso de poços de mineração, a reposição das tensões é apenas parcial, pois o material tende a dilatar, rompendo-se bruscamente.

“Mecanismos físicos explicam o comportamento dessas rochas salinas e como ocorre a deformação. Existem inúmeros padrões de deslizamentos, os quais permitem que os sais se deformem rapidamente pelo movimento de deslocamento”, destaca a pesquisa.

Os estudos em andamento sobre a instabilidade no solo do bairro do Pinheiro irão esclarecer se o fenômeno decorre dos impactos ambientais da exploração das estruturas de salgema.  

A Agência Nacional de Mineração (ANM) fiscaliza a atuação da Braskem para esclarecer se existe alguma relação, mesmo que parcial, da atividade econômica da mineradora com o problema que afeta os moradores do bairro.

A Braskem nega qualquer relação com o fenômeno, mas está realizando os levantamentos de sísmica por reflexão e de modelagens geomecânicas das cavernas de salgema, conforme exigidos pela ANM. As análises serão integradas aos demais estudos do SGB para constatar possíveis deformações e colapsos nas cavidades resultantes da exploração do mineral e sua correlação com o fenômeno no Pinheiro.

3) Extração de água subterrânea

Obra de saneamento básico da Casal, em Maceió.

Uma terceira linha de investigação do caso Pinheiro está relacionada à exploração desordenada do lençol freático de Maceió. O crescente aumento da urbanização, aliado à expansão agrícola e industrial na capital, resultaram no uso cada vez maior de aguas subterrâneas, para atender às demandas da população.

De acordo com o Plano Estadual de Recursos Hídricos de Alagoas (PERH), em 2010, mais de 80% da água consumida, na Região Metropolitana de Maceió, era de origem subterrânea, mediante a exploração de mais de 400 poços profundos. O uso intensivo de águas subterrâneas tem como consequência o rebaixamento do nível freático e a salinização das águas costeiras.

Em 2011, um estudo da Agência Nacional de Águas (ANA) mostrou uma superexploração de cerca de 100 milhões de metros cúbicos a mais do que esses mananciais subterrâneos da Região Metropolitana de Maceió conseguem naturalmente repor.

O abastecimento de água de Maceió é suprido por um sistema de reservatórios, com produção estimada em 2.000 m3/hora, associado a poços. A extração subterrânea está distribuída por baterias de poços, pertencentes à Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), localizados nos bairros de Bebedouro, Gonçalves Ledo, Bolão e Baixo Reginaldo, bem como por poços particulares. São retirados cerca de 5.200 m3/hora de água nos diferentes aquíferos. 

A Braskem também possui uma bateria de poços para extração de água subterrânea, com capacidade de extrair um volume de até 500 m3/hora. A água é utilizada no processo de extração da salgema e na indústria de Cloro-Soda, localizada no Pontal da Barra, em Maceió.

Atualmente, a Casal, responsável pelo abastecimento público da Região Metropolitana de Maceió, afirma possuir 180 poços tubulares profundos em operação, estando 80 localizados na capital alagoana. Além da Casal, cerca de 15 outras empresas particulares também possuem licença para extrair água subterrânea na cidade.

Muitos poços particulares, incluindo da Casal, já foram desativados, por consequência do processo de salinização da água, requerendo uma avaliação hidrogeológica da sua estrutura.

A história recente de Maceió mostra que, em função das dificuldades de abastecimento urbano com água de reservatórios superficiais, existiu e ainda persiste um regime de superexploração do sistema aquífero Barreiras-Marituba, para atender às demandas dos usuários da capital.

A Casal é uma das empresas investigadas como suspeita de provocar o fenômeno das rachaduras no bairro do Pinheiro. A exploração desordenada de água, por sistema de poços, pode ter provocado o rebaixamento do nível de água dos aquíferos. A empresa nega haver qualquer relação da extração de água subterrânea com o problema no bairro Pinheiro.

Falhas no sistema de saneamento básico da região, como vazamentos de tubulações, também é um dos fatores prováveis de agravar a situação, pois a absorção da água aumenta a erosão do subsolo. A deficiência no sistema de esgotamento sanitário de Maceió também é um dos problemas que podem contaminar o lençol freático.

Uma das hipóteses para explicar o caso do Pinheiro está relacionada ao aparecimento de uma dolina, fenômeno geológico que ocorre quando parte do terreno cede, formando uma cratera ou uma depressão circular ou semicircular no solo. Em áreas povoadas, o fenômeno geológico pode provocar uma catástrofe.

A dolina tanto pode ser derivada de um fenômeno natural quanto induzida artificialmente, pela exploração excessiva do lençol freático, para extração de água subterrânea.

A dolina de colapso é causada pelo desabamento do teto de cavernas no subsolo, sustentado pela pressão da água que corre em seu interior. Quando o nível freático é rebaixado, o teto pode desabar, provocando o rebaixamento de toda a camada rochosa acima da caverna. No processo de formação da dolina, pode ocorrer o fenômeno de subsidência, que se manifesta por afundamentos de terrenos. O colapso corresponde ao movimento brusco de terreno.

A exploração da água subterrânea pode levar a um rebaixamento excessivo do lençol freático, provocando afundamentos do terreno na superfície. Havendo um colapso em áreas habitadas, há risco de o fenômeno causar uma catástrofe.

Vazamentos em sistemas de distribuição de água, na coleta de esgotos ou por falhas na drenagem da água da chuva podem levar à formação de dolinas, em áreas urbanas. Esses eventos ocasionam erosão subterrânea, bem como o desmoronamento de ruas e calçadas. Em casos mais graves, as fundações de edifícios são prejudicadas, levando ao seu abandono. 

A falta de saneamento básico é um dos fatores que podem agravar o problema, por provocar o lançamento de lixo e esgoto em uma dolina. Dessa forma, o aquífero local é poluído de forma muito agressiva, por ser um dos sistemas mais sensíveis ao dano ambiental.

Esgotamento sanitário é sério problema ambiental em Maceió.

Áreas intensamente urbanizadas podem ser classificadas como zonas potenciais de riscos geológicos, à medida que a ocupação desordenada pode acelerar o processo de colapso e subsidência do solo urbano. Algumas dolinas podem ser gigantescas, de modo que, na hora do colapso, ocasionam tremores de terra de grande magnitude.

No Brasil, o fenômeno mais conhecido de formação de dolinas de colapso, em área urbana, ocorreu em 1986, no município de Cajamar (SP). Tendo iniciado no quintal de uma casa, o buraco evoluiu para uma cratera de 50 metros de diâmetro e 13 metros de profundidade. O impacto socioambiental provocou uma reorganização da estrutura urbana no município.

Os impactos nas edificações trouxeram grandes prejuízos à população. Algumas casas foram “engolidas” pela cratera. Outras apresentavam fendas e trincas, e outras deixavam expostas inúmeras rachaduras em paredes, muros e pisos, a uma distância de até 250 metros do epicentro do fenômeno.

Mais de 500 famílias que moravam no bairro de Lavrinhas, onde ocorreu o fenômeno, desocuparam suas residências. Nos dias de hoje, o solo de Cajamar foi estabilizado, pois não ocorrem mais evidências de novas fissuras e rachaduras nas residências e vias públicas. Algumas áreas do bairro foram liberadas para reocupação pelos moradores. Mas a área do "buraco de Cajamar" até hoje se mantém como uma praça deserta. 

O colapso do terreno em Cajamar foi causado pela excessiva exploração de água subterrânea pelas indústrias locais, além do fato de a cidade está localizada sobre uma estrutura calcária, de caráter frágil e altamente porosa.

4) Falhas geológicas ou estruturas tectônicas ativas na região

A quarta hipótese apontada pelos especialistas para o problema das rachaduras e fissuras no bairro do Pinheiro é a localização do bairro em uma área tectonicamente ativa. 

O vídeo acima mostra a coleta de dados de um dos estudos feitos no bairro do Pinheiro, bem como em áreas vizinhas, para analisar a estrutura do subsolo. Foram espalhados fios e sensores no solo das nas ruas, enquanto o caminhão transporta um equipamento que causa um grande impacto no terreno. Esse barulho que você escuta no vídeo corresponde às "marteladas" que o equipamento produz. Com a captação pelos sensores da onda acústica gerada, será possível verificar as condições das camadas geológicas do Pinheiro.

A hipótese também é defendida pelo engenheiro civil e geotécnico Abel Galindo Marques, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). O pesquisador defende que existem estruturas tectônicas ativas na região, falhas geológicas que sofreram alterações por conta dos impactos das atividades humanas, nas proximidades do bairro do Pinheiro.

Dentre as atividades que possivelmente influenciaram na reativação dessas falhas geológicas, estão: 1) grande quantidade de poços de extração de salgema na área dessas falhas geológicas; 2) excessivo volume de água retirada do subsolo; e 3) presença de uma camada de rochas muito fraturadas, de 200m de espessura, logo acima do salgema.

Conjunto de poços perfurados pela Braskem, em Maceió.

Os espaços vazios deixados a cerca de 1000 metros de profundidade, pela extração de salgema, bem como o rebaixamento do aquífero, a cerca de 300 metros, podem ter coincidido com uma área de falha geológica natural, que atinge as várias camadas do subsolo, no sentido vertical. É possível que esses fatores tenham originado um processo de acomodação dos solos e rochas na superfície, afetando o Pinheiro. 

Em 2004, um estudo publicado na Revista Brasileira de Geofísica mapeou a estrutura de falhas geológicas no aquífero Barreiras, maior fonte de abastecimento hídrico de Maceió. Os pesquisadores identificaram a existência de um conjunto de falhas normais, formando blocos escalonados de grabens e horsts no local. Esse sistema influencia de forma marcante o fluxo de águas subterrâneas do aquífero.

O fenômeno graben corresponde a uma depressão de origem tectônica, formada quando um bloco de terra fica afundado em relação ao território vizinho, em função de movimentos combinados de falhas geológicas paralelas ou quase paralelas. O graben geralmente tem o formato de um vale alongado com fundo plano.

Em sentido contrário, o horst é a elevação de um bloco de terreno que ocorre devido ao movimento combinado de falhas geológicas paralelas, ou relativamente paralelas, cujo movimento provoca o afundamento dos terrenos vizinhos. 

Essas são as 4 hipóteses consideradas nos estudos do bairro do Pinheiro. A seguir, iremos descrever aspectos relacionados ao conhecimento do risco e sobre como ocorrem os protocolos de alerta e alarme para prevenir a ocorrência de um desastre no local.            

Mapeamento das áreas de risco no bairro do Pinheiro

Níveis de risco de afundamento dos imóveis no bairro do Pinheiro.

Em 2018, os estudos de caráter emergencial no Pinheiro estiveram focados no mapeamento das evidências do fenômeno. Foi feito o mapeamento das feições de instabilidade do terreno, com indicação da intensidade das evidências.

O bairro do Pinheiro foi subdividido em quatro áreas, levando-se em consideração o risco de subsidência, que representa a possibilidade de acomodação do solo.

Como mostrado no mapa das feições acima, o SGB classificou o bairro nas seguintes áreas: a) área vermelha ou de muito alto risco (493 imóveis); b) área laranja ou de alto risco (1.158 imóveis); c) área amarela ou de médio risco (325 imóveis); e d) área azul ou de baixo risco (3.456 imóveis), totalizando 5.432 imóveis na região afetada pelas fissuras.

Com base nessa classificação das áreas de risco, de acordo com a gravidade dos impactos, a Defesa Civil e o Cenad estão mobilizados para executar o Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil (Placon) do bairro do Pinheiro. Em parceria com outros órgãos governamentais, as instituições se preparam para adotar medidas em uma situação de emergência no bairro que acarrete risco de desastre.

O Placon será ativado sempre que forem constatadas uma das situações de risco previstas: 1) aumento das fissuras que evidenciem necessidade de evacuação; 2) previsão de ocorrerem eventos meteorológicos extremos, como chuvas fortes e tempestades, aumentando o risco de ocorrer o afundamento do bairro; 3) quando o fenômeno provocar danos humanos.

No dia 23 de janeiro de 2019, a Defesa Civil realizou um Treinamento Simulado para orientar a população sobre os procedimentos de evacuação do bairro do Pinheiro, em caso de emergência. Na ocasião, os moradores receberam o alerta da Defesa Civil nacional, via SMS, sobre a ocorrência simulada de um desastre. Foram definidas rotas de fuga e pontos de encontro para evacuação do bairro.

As rotas de fuga são as vias que a população deve recorrer, em uma situação de emergência. Já os pontos de encontro são os locais para onde os moradores devem se dirigir para receber atendimento, em caso de alarme da Defesa Civil.

Monitoramento hidrometeorológico e alerta do risco de desastre

Crateras abertas nas ruas do bairro do Pinheiro.

O monitoramento permanente das condições meteorológicas em Maceió é fundamental para evitar a ocorrência de um desastre socioambiental no bairro do Pinheiro.

A ocorrência de chuva forte, do tipo torrencial (grande volume de água caindo em um curto espaço de tempo) representa um alto potencial de provocar reacomodações de terra no bairro

Em fevereiro de 2019, o geólogo da CPRM, Thales Sampaio, destacou que a água da chuva entra pelas fraturas e fissuras, atundo como um lubrificante que pode causar um acidente grave no Pinheiro, em função de as edificações já estarem bastante danificadas.

As políticas públicas de prevenção de desastres são muito incipientes no Brasil e ainda existe grande vulnerabilidade institucional relacionada à gestão de riscos, especialmente no caso do bairro do Pinheiro, cuja ameaça associa um conjunto de fatores ainda inéditos no Brasil: geológico, hídrico, econômico e socioambiental.

O risco de desastre no bairro do Pinheiro requer um sistema de alerta adequado, que deverá ser estruturado em função de quatro ações fundamentais:

a) Conhecimento dos riscos

É a tarefa mais complexa e na qual têm se concentrado as investigações no bairro do Pinheiro. Corresponde a realizar vários estudos e integrá-los para definir as causas e a gravidade da ameaça. No caso, um fenômeno geológico, de origem natural e/ou humana, que pode levar ao afundamento do solo do bairro. O risco corresponde à relação entre a ameaça de desastre, a vulnerabilidade da população exposta e à sua capacidade de resposta. Já a vulnerabilidade é o potencial de sofrer danos humanos e perdas materiais.

b) Monitoramento e alerta

São as atividades de coleta de dados e informações para identificar situações de risco, com o objetivo de fundamentar a emissão de alertas, em tempo hábil, de provável ocorrência de desastres. No caso do bairro do Pinheiro, os principais dados monitorados estão relacionados às condições hidrometeorológicas, que podem aumentar o risco de um desastre geológico na região.

c) Comunicação

São as ações que visam informar aos agentes públicos e comunidades expostas sobre o risco de um desastre, em determinada localidade. Geralmente, o alerta é feito através de e-mail, SMS e aplicativos de mensagens. Já os canais utilizados para uma situação de alarme são acionamento de sirenes e carros de som. A Defesa Civil do município é responsável por comunicar à população sobre o perigo de um desastre potencial, por meio do uso preventivo do sistema de alerta e alarme à população residente.

O alerta corresponde à dimensão de potenciais danos materiais e humanos, diante da interação entre um fenômeno natural (ameaça) e as vulnerabilidades de determinada área. Já o alarme é a confirmação de que o risco de desastre está se concretizando, o que exige a evacuação imediata de uma área que pode vir a sofrer danos.

d) Capacidade de resposta

Inclui as formas de organização local e as estratégias adotadas para responder ao risco anunciado. Em geral, resulta das condições econômicas, sociais, culturais e institucionais para fazer frente às ameaças. A capacidade de resposta depende do tempo de antecedência no envio dos alertas. É necessário haver tempo suficiente, após o alerta, para que população e agentes públicos locais possam se preparar e agir para reduzir os danos humanos e materiais.

A percepção do risco de desastre por parte da comunidade é fundamental. O treinamento da população para adotar as medidas adequadas, em uma situação de evacuação, pode minimizar o impacto e evitar uma tragédia. Uma área de risco geralmente abriga centenas de pessoas potencialmente afetadas, podendo deixá-las desabrigadas, feridas e até provocar vítimas fatais.

Em 2011, foi criado o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres (Cemaden), órgão responsável por analisar cenários de risco de desastres em municípios brasileiros, com base no monitoramento meteorológico, hidrológico e geológico de áreas ocupadas expostas a potenciais tragédias humanas.

O Cemaden emite alertas sobre perigos potenciais de desastres naturais, em áreas de risco. Os alertas são enviados para o Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cenad), coordenado pela Secretaria Nacional de Defesa Civil, que o encaminha para as defesas civis estaduais e municipais.

Os protocolos de alerta buscam identificar qual volume de chuva é necessário cair, em cada área monitorada, para provocar determinado tipos de ocorrência.

É necessário mapear os domínios de risco a escorregamentos, cujas condições mudam em cada localidade. A correlação entre chuva e escorregamento considera o volume pluviométrico, ou seja, a intensidade da chuva e o acumulado da mesma no período de 1 hora, bem como de um a quatro dias e mensalmente. A análise se justifica devido às vulnerabilidades e às particularidades no uso e ocupação de áreas de risco específicas.  

O meteorologista Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), atua no monitoramento das condições meteorológicas do bairro do Pinheiro. Ele destaca que é preciso estabelecer os limiares de chuva e quais as consequências possíveis de cada limiar, ou seja, qual o volume de chuvas necessário para provocar escorregamentos de terra naquela área.

Para evitar um desastre no Pinheiro, devem-se conhecer os cenários de risco, definir os limiares de chuva para protocolos de alerta e alarme, capacitar os profissionais que serão envolvidos em situações de gestão de risco e preparar preventivamente a população”, destaca. 

Para Barbosa, o conhecimento sobre a probabilidade e recorrência de chuvas, tais como seus limiares críticos, requer a integração de diversas ferramentas que contribuam com a previsão do tempo, incluindo a medição da quantidade acumulada e intensidade de chuvas. Dentre as ferramentas de análise, estão: dados de monitoramento por satélites, radares meteorológicos, modelos de previsão, estações meteorológicas e pluviômetros automáticos para acompanhamento das chuvas, em tempo real.

Para casos de deslizamento de massa, o Cemaden/MCTIC toma por base o limiar reduzido de acumulados de chuva de 20 mm, a cada 24 horas, ou a intensidade de 20 mm por hora.

Barbosa ressalta que os protocolos ainda não estão claros para antecipar ações preventivas de alerta e alarme no bairro do Pinheiro. "Por se tratar de uma abordagem em microescala, para uma área específica de um bairro em Maceió, a definição desse limiar requer o conhecimento adequado das caraterísticas dos solos, visando compreender a sua capacidade de absorção em relação ao volume de precipitação", completa.

O meteorologista ainda ressaltou a necessidade de instalação de um laboratório de observação hidrometeorológica, no bairro do Pinheiro, com uso de sensores de precipitação (pluviômetros automáticos), análise das caraterísticas dos solos e do seu teor de umidade. "Como a estação chuvosa em Maceió ocorre no período de abril a setembro, será a oportunidade de estabelecer parâmetros científicos para a gestão de riscos geológicos dessa magnitude, no Brasil ou em outros países", destaca. Através do Lapis, Barbosa já atua em pesquisas de monitoramento hidrometeorológico para subsidiar o Cemaden na emissão de alertas de desastres no Nordeste brasileiro (Projeto Capes-Pró-Alertas). 

Além desses protocolos, um município em situação de risco deve fortalecer a capacidade institucional da Defesa Civil, para que possa agir preventivamente, diante do alerta de uma potencial tragédia natural em sua cidade. Especialistas afirmam que grande parte dos gestores municipais brasileiros não sabe que ações deve proceder em uma situação de perigo.

Dentre as ações que compete aos municípios, estão: fazer vistorias no local, estruturar abrigos e condições de remoção emergencial, catalogar os bens das pessoas afetadas, capacitar a população e monitorar a incidência dos processos climáticos.

Estudos em andamento no bairro do Pinheiro

Estudos topográficos e de solos no bairro Gruta de Lurdes, vizinho ao Pinheiro.

O terreno do bairro do Pinheiro está em movimento, mas ainda não se tem conhecimento da gravidade dessa instabilidade.

Enquanto a Defesa Civil monitora o avanço das fissuras, rachaduras e afundamentos em imóveis e ruas do Pinheiro, o SGB e a ANM realizam vários estudos simultâneos para esclarecer as causas do fenômeno. Uma das investigações, baseada em monitoramento por satélites, permitirá qualificar e quantificar o movimento do solo, as áreas atingidas, em que direção ocorre o movimento dos solos (deslocamento horizontal ou vertical) e quantos milímetros as áreas já se movimentaram.

Visando esclarecer o fenômeno ainda desconhecido, o SGB também está realizando um conjunto de estudos geológicos e geotécnicos, mediante sondagens. O objetivo é caracterizar as propriedades de rochas, solos e estruturas geológicas (falhas, fraturas e outras descontinuidades) antigas e recentes, com capacidade de gerar movimentos sísmicos na região. O estudo será concluído até 22 de março de 2019.

Também está sendo realizado o levantamento batimétrico sísmico (embarcado) nas lagoas Mundaú e Manguaba, com o objetivo de mapear o relevo e as estruturas geológicas/descontinuidades do fundo do complexo lacunar, em busca de sinais de subsidência ou que indiquem alterações morfológicas anormais.

A lagoa Mundaú exerce um importante papel na recuperação, recarga e alimentação do sistema aquífero Barreiras-Marituba. Segundo resultados preliminares dos estudos realizados pelo SGB, o manancial está bastante poluído e asseroado.

Os especialistas vão perfurar seis poços tubulares para monitoramento de áreas subterrâneas. Eles buscam identificar como estão as condições do subsolo nos locais onde há crateras de exploração de salgema lacradas e na  área vermelha do Pinheiro, onde mais de 500 residências apresentam rachaduras, afundamentos de solo e pequenas fendas.

Também estão sendo realizados estudos a uma profundidade de até 1500 metros abaixo da terra, ultrapassando a camada de sal. A integração desses dados irá permitir uma análise aprofundada para confirmar o real problema que afeta a vida da população do bairro do Pinheiro.

Conclusões

As rachaduras e fissuras em imóveis e ruas públicas do Pinheiro, representam o risco de ocorrer um grave desastre geológico no bairro. Assim, descobrir as causas desse fenômeno é fundamental para evitar a ameaça de maiores danos humanos, ambientais e materiais. O conhecimento do risco é o primeiro passo para minimizar a vulnerabilidade da população e a ocorrência de uma tragédia no local.

Conhecer os fatores que podem agravar o problema geológico no bairro do Pinheiro, fazendo um monitoramento abrangente e integrado das condições físicas e dos dados meteorológicos, é fundamental nesse momento para uma gestão preventiva do risco de desastre”, completa o meteorologista.

O cenário do risco configurado hoje em Maceió é inédito no Brasil, de modo que o bairro do Pinheiro pode ser um laboratório de fortalecimento e articulação institucional, para o monitoramento integrado, que permita ações antecipadas visando evitar um desastre. A forma como está sendo conduzida a gestão pode servir de modelo para ampliar um tema ainda pouco conhecido na área de prevenção de desastres no Brasil, tanto do ponto de vista científico quanto institucional.

Na sua opinião, o Brasil possui instituições preparadas para lidar com risco de desastre? Você acredita que a gestão do risco no bairro do Pinheiro está adequada?

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