Fim da La Niña: 7 razões para não se desesperar


Por Letras Ambientais
quinta, 03 de maio de 2018


Pesquisadores da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) e do International Research Institute for Climate and Society (IRI/CPC), dos Estados Unidos, confirmaram o encerramento do fenômeno La Niña, no Oceano Pacífico, no decorrer deste outono, e neutralidade para o inverno 2018. E agora, o que vai acontecer? Como isso afetará a produção em diferentes regiões do Brasil? O El Niño estará de volta? Há motivos para se desesperar com essa nova previsão?

O La Niña é um fenômeno oceânico-climático caracterizado pelo resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico. Sua ocorrência gera uma série de mudanças significativas no regime de chuvas e temperaturas ao redor do mundo, com impactos diferentes para cada região.

O atual La Niña, cujos primeiros efeitos começaram a ser detectados em novembro do ano passado, com temperatura do Pacífico abaixo da normal, foi considerado atípico, fraco e tardio. O fenômeno se manifestou por alguns meses e a previsão é de que, em junho deste ano, irá desaparecer, sem maiores consequências para o clima global. Ele consegue ser previsto pelos meteorologistas com até quatro meses antes do seu aparecimento.

Enquanto isso, no Brasil, gestores do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos grupos responsáveis por divulgar a previsão climática, tentam diminuir o impacto da repercussão de uma fake news nas redes sociais, que indicava um suposto “Inverno mais rigoroso dos últimos 100 anos” no País.

Eles ressaltaram que a informação não possui qualquer fundamento técnico-científico, baseado em pesquisas climatológicas ou de previsão climática. Reforçaram, assim, a atual previsão climática das agências americanas de que as anomalias (aquecimento ou resfriamento) de temperatura da superfície do oceano Pacífico Equatorial (região onde ocorre o fenômeno El Niño Oscilação Sul – Enos) devem ficar próximas da neutralidade no inverno, ou seja, durante o período de junho a setembro.

De fato, o inventor dessa fake news certamente não sabia que os modelos climáticos disponíveis ainda não são capazes de prever situações de grandes extremos climáticos, como seria o caso de uma provável condição de inverno excepcional no Brasil.

Polêmicas à parte. O que realmente nos interessa, neste post, é esclarecer as várias perguntas surgidas a partir da divulgação da nova previsão de encerramento do La Niña. Essas informações são decisivas para a tomada de decisão e o planejamento agrícola no Brasil. Dessa forma, iremos discutir os 7 fatos pelos quais os agricultores realmente devem ficar atentos sobre o fim do fenômeno, previsto para ocorrer em junho deste ano.

1) O que significa uma “zona neutra” do El Niño Oscilação Sul?

Significa que nenhum dos eventos (El Niño ou La Niña) estarão notavelmente ativos e as temperaturas do Pacífico permanecerão na média. Durante períodos de neutralidade, em áreas como o Rio Grande do Sul, as chuvas são regularmente distribuídas na maior parte do estado, chovendo um pouco mais que o normal, sendo favorável aos rendimentos de grãos das principais culturas de interesse econômico (soja e milho), que em geral são conduzidas sem irrigação e, portanto, dependentes das chuvas.

>> Leia também: 10 lições dos países líderes em gestão sustentável das águas

Em 2017, com o fim do inverno em setembro, os efeitos da fase de neutralidade dos fenômenos El Niño e La Niña, no Pacífico, provocaram uma estação fria e seca na região Sudeste do País. Além da ausência de chuvas, o fenômeno provocou temperaturas elevadas, um pouco acima da média em alguns estados, embora tenha ocorrido eventos de geada em localidades do Sul de Minas Gerais e de São Paulo, como é o caso da Serra da Mantiqueira.

Devido à pouca chuva e às altas temperaturas, a umidade relativa do ar também ficou muito baixa, na maioria das áreas da região Sudeste, com registros frequentes de valores abaixo de 30% em várias localidades, o que caracterizou um inverno muito seco.

As chuvas ocorridas durante o período de neutralidade fornecem a base para identificação da normal climatológica de cada estação, nas diferentes regiões.

2) Teremos o El Niño de volta no segundo semestre?

Apesar de muita especulação para o aparecimento de um El Niño no segundo semestre de 2018, ainda há muita incerteza na previsão dos modelos climáticos para esse período. As temperaturas do Oceano Pacífico ficarão mais perto da média, dificultando a análise dos meteorologistas e oceanógrafos, tornando as previsões mais difíceis. Há dificuldades e limitações nas simulações, por se tratar de uma fase de transição, e também pelo histórico dos últimos anos.

>> Leia também: Mudanças ambientais: 10 impactos sobre a Caatinga

Em 2012, 2014 e em 2017, três previsões de El Niño acabaram frustradas. O aquecimento das águas do Pacífico não foi intenso nem duradouro suficiente para formação do fenômeno. Em parte, o problema possivelmente está na Oscilação Interdecadal do Pacífico, fenômeno de longo prazo onde por um período de até 30 anos observa-se maior frequência de La Niñas e outro longo período com mais El Niños.

A questão é que, atualmente, estamos sob fase negativa, ou seja, há maior tendência de ocorrer La Niñas. Então, ainda não é possível afirmar com segurança que aparecerá um El Niño, embora já haja evidências de que o Pacífico irá aquecer. A pergunta decisiva está em torno do início do aquecimento. Se ele for tardio, como em 2012, o efeito poderá ser diferente do esperado para um El Niño “normal”.

Assim, o cenário ainda está incerto para afirmar que haverá El Niño ou La Niña. O meteorologista Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) pondera que o fim do La Niña, que deverá ocorrer em junho, marca o encerramento de um ciclo. Até setembro, a expectativa é que a temperatura do Pacífico se mantenha neutra, de modo que, a partir de então, o próprio fenômeno La Niña poderá se configurar novamente.

3) Qual é a previsão real para o inverno no Brasil?

O inverno brasileiro ocorre de 21 de junho a 22 de setembro. Como mencionado acima, as agências nacionais e internacionais já confirmaram uma condição de neutralidade no El Niño Oscilação Sul para esse período, ou seja, não haverá manifestação de El Niño e nem de La Niña, de modo que a temperatura do Pacífico estará em torno da média (na faixa entre +0,5 e -0,5°C).

Com base nos modelos e nas temperaturas observadas no oceano Pacífico, o fenômeno La Niña deve manter a intensidade moderada ou fraca, até maio, com forte probabilidade de entrar em uma fase de neutralidade nos meses seguintes.

5) Quais as principais limitações e fontes de erros das previsões climáticas?

Supercomputador do Inpe. 

As principais limitações para as previsões climáticas são: 1) Dados meteorológicos: deficiência nos dados meteorológicos observados, devido à baixa densidade na distribuição espacial de estações meteorológicas de superfície, ou até mesmo falhas nos instrumentos; 2) Simplificações e aproximações: nas complexas equações matemáticas que descrevem o movimento da atmosfera, isso pode acarretar falhas; 3) Falta de capacidade computacional: mesmo com todo avanço tecnológico, essa ainda é uma das limitações para rodar modelos numéricos, exigindo que os processos atmosféricos sejam resolvidos em termos de valores médios sobre determinadas áreas. De forma cumulativa, pequenos erros podem levar a resultados totalmente diferentes a longo prazo, provocando desvios da previsão real no futuro. A previsão de curto prazo tem alto potencial de certeza, chegando até a 80% de exatidão para o prazo de uma semana, mas à medida que o prazo se torna maior, reduzem-se as certezas da previsão.

6) O que vai acontecer após o inverno?

O gráfico acima mostra os resultados da saída dos modelos para a temperatura da região Niño 3.4, com base nas temperaturas da superfície do Pacífico, de abril de 2018. Pode-se observar que os modelos climáticos ainda não permitem prever o que vai acontecer depois de setembro, havendo grande incerteza em relação à ocorrência de El Niño, La Niña ou neutralidade. Geralmente, somente é possível antever essas informações com cerca de quatro meses de antecedência. Após um período de neutralidade de fenômenos no inverno, é possível que a temperatura do Pacífico se mantenha estável, ou se configure algum tipo de anomalia característica do Enos, seja ela positiva (El Niño) ou negativa (La Niña).

Caso haja a formação de um La Niña, como vem ocorrendo nessa safra, as chuvas tendem a reduzir no Sul do Brasil, e aumentar nas regiões Norte/Nordeste. Com águas mais frias no Pacífico, a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), sob efeito da La Niña, tende a sofrer um deslocamento para a porção sul da região de atuação, favorecendo a ocorrência de chuvas. Assim, se após setembro for iniciado um novo ciclo de La Niña, a indicação será de volumes abaixo da categoria normal em toda a região Sul do País (em alguns casos, ocasionando secas severas), e aumento no total acumulado em parte do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

De forma inversa, caso o fenômeno El Niño esteja ativo a partir de setembro, será observado, no Sul do País, um volume de chuvas muito acima da média. Na região Sudeste, haverá aumento das temperaturas durante o inverno e uma intensificação do regime de chuvas. No Nordeste, instalam-se secas severas nas áreas centrais e norte da região, afetando, principalmente, a área semiárida, que enfrenta crises dramáticas relativas à escassez hídrica. Por fim, no Norte do País, haverá redução das chuvas nas porções leste e norte da floresta amazônica, caracterizando algumas estiagens cíclicas para a região e aumento de problemas como as queimadas.

No Nordeste, o La Niña normalmente implica no aumento das chuvas, que costumam ficar acima da média. No entanto, o clima da região também é muito dependente da temperatura do Oceano Atlântico, que neste primeiro semestre de 2018 ficou mais fria que o normal. Com isso, as chuvas ocorreram com maior frequência em comparação a 2017, quando a maior parte do Nordeste passou por um período de intensa seca, embora com volumes abaixo da média.

Com o fenômeno La Niña configurado no início deste ano, embora não tenha sido tão forte, houve a intensificação das chuvas no Nordeste (acima da média em algumas áreas, como foi o caso do Ceará), o que pode favorecer os resultados das safras agrícolas anuais na região.

7) Qual a influência do Atlântico no clima do Semiárido?

O vídeo acima, elaborado pelo Lapis, com imagens do satélite Meteosat-10, mostra as mudanças na vegetação da Caatinga, no ano de 2017, sob o efeito do El Niño e do La Niña.

Na obra “Um século de secas”, os autores analisaram a influência do El Niño sobre as condições climáticas do Semiárido brasileiro, no período de 1901-2016. Eles concluíram que as 32 secas ocorridas no Semiárido brasileiro, durante o interstício, e dos 30 eventos de El Niño (fracos, moderados e fortes), em 23 casos (pouco mais de 70% deles) houve associação direta entre o fenômeno climático e o oceânico.

>> Leia também: Resenha de livro – Um século de secas no Semiárido brasileiro

Por outro lado, foi observado que nove eventos de seca no Semiárido (quase 30% deles) não coincidiram com a ocorrência de El Niño (1904, 1907, 1908, 1909, 1915, 1936, 1942, 2012 e 2013). Assim, apesar de frequentemente se estabelecer relação direta entre o El Niño e a ocorrência de secas no Semiárido brasileiro, os resultados evidenciam que o fenômeno atmosférico-oceânico não tem sido suficiente para explicar os referidos eventos climáticos.

Durante a excepcional “seca do século” ocorrida recentemente (2010-2016), os autores do livro “Um século de secas” demonstraram que somente em 2016, houve correlação entre forte El Niño e severa seca no Semiárido brasileiro, de modo que nos demais anos a seca foi explicada pela influência do Oceano Atlântico.

8) Como fica a produção agrícola brasileira no segundo semestre?

Diante do cenário de incerteza após o inverno, é importante que as áreas mais sensíveis às anomalias ou extremos climáticos, como é o caso da agricultura, estejam preparadas e se planejem para distintas situações, tendo em vista não perderem a produção.

Pesquisas indicam que a variação interanual, principalmente das chuvas, muitas vezes associada aos fenômenos El Niño e La Niña, tem sido um dos principais fatores determinantes na variação espacial e temporal do rendimento de grãos, com efeitos positivos ou negativos, dependendo da intensidade do fenômeno, da cultura avaliada e do manejo empregado na lavoura. É importante ficar atento às informações de previsão, pois podem permitir a tomada de decisão de planejamento agrícola ou de manejo de lavoura que venham a minimizar riscos de perdas e potencializar o aproveitamento dos fatores ambientais capazes de aumentar a produção agrícola, trazendo retorno econômico satisfatório ao produtor rural.

De acordo com as possíveis influências dos fenômenos do El Niño Oscilação Sul (El Niño, La Niña e neutralidade) em sua região, é possível planejar as etapas da produção, como semeadora, escolha das culturas, adubação e colheita.  

Conclusão

O La Niña permanece até junho deste ano. A partir de então, os modelos climáticos indicam que o Pacífico estará em condição de neutralidade, ou seja, sem o fenômeno La Niña ou El Niño configurados.

Assim, o momento é de cautela, cuidado com as especulações. Embora seja possível, ainda não há indicações de que, no segundo semestre de 2018, haverá influência de El Niño. É preciso ressaltar que a própria La Niña poderá voltar a partir de setembro, bem como a temperatura das águas do Pacífico se manter em condição de neutralidade. Para o Nordeste, não subestime a influência do Atlântico, pois ela pode ser decisiva na definição das condições climáticas. A solução é se planejar e ficar atento, até que os modelos de previsão climática tenham maior clareza sobre o que vai acontecer.

Você conhece os impactos da neutralidade do El Niño oscilação sul em sua região? O que você espera, após essa atual previsão? 

Gostou do texto? Compartilhe com seus amigos:



Artigos Relacionados

Clima e energia

Como o Atlântico favorece as chuvas no Nordeste?

Clima e energia

Mudanças ambientais: 10 impactos sobre a Caatinga

Clima e energia

Energias renováveis: 10 motivos porque reduzem a crise

Inscreva-se

Deixe aqui seu e-mail e receba nossas atualizações.


Logo do Letras Ambientais

Facebbok Twitter Youtube Feed

contato@letrasambientais.com.br