Vidas Secas, 80 anos: 7 lições que continuam atuais


Por Letras Ambientais
quinta, 20 de setembro de 2018


Você já ouviu falar em refugiados ambientais? O termo é utilizado para se referir às pessoas que fogem de onde vivem por conta de problemas ambientais. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, até 2020, cerca de 50 milhões de pessoas devam migrar de seus lares por causa da seca, erosão dos solos, desertificação, inundações, desmatamento, mudanças climáticas e outros problemas ambientais. 

A migração causada por eventos climáticos não é nova, mas deve se intensificar com as mudanças climáticas. Esse processo irá afetar as plantações e aumentar os preços dos alimentos, intensificando a fome e atingindo diretamente as populações mais pobres.

Seca, fome, migração. O tema é bastante atual. Mas há 80 anos, na obra Vidas Secas, o escritor Graciliano Ramos já tratava, embora com outras palavras, dos refugiados do clima do Semiárido brasileiro.

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Refugiados do clima

Vaqueiro típico do Semiárido brasileiro
Vaqueiro típico do Semiárido brasileiro

O romance Vidas Secas, considerado um clássico da literatura brasileira, foi publicado em março de 1938. Conta a estória de uma família do Nordeste brasileiro – formada pelo casal Fabiano e sinha Vitória, juntamente com os dois filhos, a cachorra Baleia e o papagaio – que migra da Caatinga para fugir das consequências da seca.

A obra foi ambientada na Caatinga, mas sua universalidade é incontestável, por tratar de temas contemporâneos e cada vez mais comuns a diversos países, especialmente aqueles considerados em desenvolvimento.

Fabiano é um vaqueiro típico do sertão, sem-terra e sem teto, que trabalha para um “patrão”, o “dono da fazenda” para, em troca, ter onde morar e garantir minimamente a subsistência da família, mesmo passando por várias humilhações. Mas a seca desestrutura a frágil estabilidade da família naquele lugar, pois o “patrão” vai morar na cidade e fecha as porteiras da fazenda, restando à família apenas “fugir” da seca.

A família migra em direção ao Sul, em busca do sonho de melhores condições de vida em outras terras, da oportunidade de cuidar da educação dos filhos, em uma “terra desconhecida e civilizada”.

Mas o caminho da Caatinga, duramente percorrido pela família, é marcado por muitas privações, como fome, sede, cansaço e sofrimento. Alcançar o lugar dos sonhos parece um destino cada vez mais distante.

Transcorridas todas essas décadas de publicação da obra Vidas Secas, o impacto da sua leitura permanece atual, firme e intacto. Várias lições podem ser retiradas da obra para o Semiárido brasileiro dos dias atuais. Neste post, são listadas as 7 lições que Vidas Secas pode trazer para um Semiárido mais sustentável.

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1) É possível viver no Semiárido com estabilidade

Vidas Secas, retratos do Nordeste brasileiro no filme
Cena do filme "Vidas Secas", família indo para a novena de Natal na cidade

Vidas Secas não é um romance de seca. A centralidade do romance está em um “ano bom”, ou seja, um ano de chuvas na Caatinga. Tanto é que o sétimo capítulo, localizado bem no centro da obra, composta por 13 capítulos, é intitulado “Inverno”, remetendo ao período de chuvas na região. Essa visão contraria certa leitura superficial da obra.

O narrador de Vidas Secas situa o período das chuvas entre dois momentos de seca: no início do romance – quando os sertanejos migrantes chegaram à fazenda sob a condição de “retirantes”, “famintos” e “cansados”, em fins de uma longa estiagem – e em seu desfecho – quando novamente fugiram da fazenda, diante da volta da seca. Em todo o desenrolar da trama, a seca aparece mais como um lugar de memória para os personagens de Vidas Secas e como lembrança dos sofrimentos passados.

A chegada das chuvas à Caatinga trouxe alegria à Fabiano. Ele passou a arquitetar sonhos de que seriam “todos felizes”, a “fazenda renasceria” e ele seria o “dono daquele mundo”. Assim, a família poderia ter privilégios possíveis apenas nos “anos bons”: tratar da educação dos filhos, dispor de fartura de alimentos e comprar roupas novas para frequentar a festa de Natal na cidade.

Graciliano Ramos acreditava em um mundo com mais justiça social e menos desigualdades no Nordeste, sendo necessário, para isso, haver transformação no modelo de sociedade extremamente perverso que caracterizava as relações sociais no meio rural.

Ao mostrar a vida da família durante um ano de “inverno”, com relativa segurança e estabilidade, o escritor alagoano questionou as relações sociais excludentes e tensivas que impediam a essa família de sertanejos viver com mais estabilidade no Nordeste brasileiro.

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2) É fundamental o acesso à terra para produzir

Fazenda típica do Semiárido brasileiro
Sítio localizado na área mais seca do Brasil

Vidas Secas é uma contundente crítica ao grande latifúndio, ao coronelismo, representado pelo “patrão” ou “dono da fazenda”, que humilhava e extorquia Fabiano, impedindo que ele saísse do ciclo de opressão sob o qual vivia.

Na obra, quando a família ocupou uma fazenda abandonada, no fim de uma seca, o vaqueiro parecia satisfeito. Mas suas esperanças esmoreceram, pois as chuvas vieram e com ela também o proprietário da fazenda, sob o domínio do qual o vaqueiro passou a viver, sendo humilhado, enganado, animalizado. Somente com muita insistência, conseguiu ficar trabalhando ali como vaqueiro. Moraria com a família pouco “mais de um ano” numa “casa velha” da fazenda.

Para o escritor de Vidas Secas, a opressão à família de Fabiano era causada por questões sociais. Caso tivesse acesso à terra e à água, a família conseguiria obter o sustento, como resultado do seu esforço e trabalho. A condição climática natural da Caatinga era instrumentalizada pelos latifundiários para a exploração de uma população extremamente vulnerável à seca, como era o caso da família de Fabiano e sinha Vitória. A concentração fundiária era, e continua sendo, uma das formas mais perversas de impedir a autonomia dos pequenos produtores rurais do Semiárido brasileiro.

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O romance denuncia a realidade social dos sertanejos pobres que viviam no Nordeste da época, cujo cotidiano era marcado pela opressão, humilhação, miséria, espoliação econômica e extremas privações, sobretudo nos períodos de seca. A crítica incide, em especial, para a necessidade de transformação da vida no campo, onde a maioria da população pobre vivia em condições miseráveis, sob o poder de mando dos grandes latifundiários, e sem acesso à propriedade da terra, concentrada nas mãos de poucos privilegiados.

No Brasil, inclusive no Nordeste, ainda é adotado um modelo de desenvolvimento excludente, e milhares de trabalhadores continuam sem acesso à terra, à água e à floresta. Conflitos agrários têm sido comuns, com situações de violência às famílias, diante do latifúndio, do agronegócio, da mineração e de grandes obras de infraestrutura.

Por outro lado, experiências mostram que o acesso à terra, com apoio da extensão rural, pode favorecer a autonomia dos produtores e melhores condições de vida.

3) A migração é uma fuga evitável

Aves migratórias do Nordeste e Semiárido
Bandos de aves migratórias

Em Vidas Secas, a migração da família de Fabiano e sinha Vitória é comparada às revoadas das aves de arribação, pássaros migratórios, da espécie Zenaida auriculata Noronha, que deixam o Semiárido, em bandos, com a chegada da seca.

Para Fabiano, as aves eram “excomungadas”, “pestes”, “miseráveis”, por desceram ao sertão para anunciar-lhe “desgraças” e “destruição”, que a seca em breve chegaria e seria necessário “fugir de novo, aboletar-se noutro lugar, recomeçar a vida”.

Inicialmente, a obra Vidas Secas seria intitulada de “Um mundo coberto de penas”, demonstrando o espanto da crítica do escritor com aquela situação de penúria no Nordeste. A expressão remete à ideia de que tanto homens quanto pássaros, com a chegada da seca, alçariam voos em busca da liberdade, deixando apenas suas “penas”, seus rastros e suas marcas impressos na paisagem da Caatinga.

Os grandes fazendeiros do Nordeste eram favorecidos, de diversas maneiras, pela seca, ora recebendo as benesses do governo para “socorrer” os “flagelados”, na prática, desviadas para causas particulares, ora subordinando os sertanejos mantidos em seus domínios, em situação de dependência, como o fazia com a família de Fabiano, em Vidas Secas.

As políticas para as secas não chegavam à população vulnerável, realmente necessitada de auxílio, como demonstra o estudo inédito publicado no Livro "Um século de secas". Por essa razão, com a chegada da seca, não restava alternativa a esses pequenos produtores que não fosse migrar, fugir em busca da mítica “terra distante”, uma “cidade grande, cheia de pessoas fortes”.

A história das políticas para as secas no Semiárido brasileiro, no passado e no presente, foi analisada na obra “Um século de secas: por que as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?”, publicada pela Editora Chiado (Portugal). Para adquirir a obra, clique aqui.

A “fuga” da família de Vidas Secas era uma decisão recorrente no interior do Nordeste da época, durante os períodos de seca, embora o desejo dos sertanejos fosse permanecer em sua terra. A decisão de migrar resultava do desespero diante da seca, da pobreza, da miséria, da fome e da ignorância.

A população pobre do interior do Nordeste, tornava-se ainda mais vulnerável com a chegada da seca, pois estava inserida em um meio político e social hostil, no interior de uma estrutura concentrada de poder e de um regime de produção excludente. Era o caso da família de Fabiano e sinha Vitória, protagonista de Vidas Secas, situada pelo narrador na fronteira da animalização, subjugado por um sistema que ameaçava sonegar-lhe a própria condição humana.

A contundência dessa crítica, apresentada em Vidas Secas, resulta do posicionamento de Graciliano Ramos em relação a um dos polos político-ideológicos do seu tempo, a saber, sua simpatia pelo comunismo. Ele denunciava as relações sociais de opressão e de injustiça social ainda predominantes no meio rural brasileiro, especialmente na região Nordeste, no momento em que o Sul caminhava para a industrialização e urbanização.

O escritor acreditava na possibilidade de um País e um Nordeste mais próspero, caso houvesse transformação em sua estrutura social, promovendo mais igualdade e justiça social, menos fome, pobreza e espoliação econômica. Somente dessa forma, a migração seria um desespero evitável, caso todos tivessem acesso à terra e aos meios necessários para trabalhar e garantir sua autonomia. Em outras palavras, não eram as secas, mas as cercas (da terra, da água, da caatinga, da produção de alimentos etc.), responsáveis pela migração das famílias nordestinas.

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A obra Vidas Secas mostra que nos períodos de chuvas, os mesmos problemas sociais permaneciam no Nordeste, mas era durante as secas que vinham à tona e se tornavam insuportáveis, sendo necessário às famílias abandonarem a terra.

A migração já foi prática muito comum no Nordeste, em vários momentos históricos, como na década de 1930, quando Vidas Secas foi escrita, e os sertanejos partiam em busca de trabalho no Sudeste do Brasil.

Nas últimas décadas, dados mostram a redução da migração no Nordeste, provavelmente em decorrência de programas sociais de acesso à água e alimentos. Todavia, a progressiva desertificação dos solos do Semiárido brasileiro poderá impulsionar cada vez mais pessoas a deixarem a zona rural, em função da perda da produtividade das suas terras.

4) A fome no Semiárido é inaceitável

Crianças merendam em escola do Semiárido
Merenda escolar: única refeição completa para muitas crianças do Semiárido

Em 2014, o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). No mesmo ano, o Brasil atingiu o menor índice de pessoas em situação de extrema pobreza, desde 1992, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

Porém, a crise econômica e o desemprego no País, bem como os cortes nos benefícios sociais, como o Bolsa Família, aumentaram o risco de o Brasil voltar a figurar no Mapa da Fome. A situação é mais grave em regiões como o Semiárido brasileiro, por ter enfrentado recentemente a pior seca da sua história, conhecida como a “Seca do Século” (2010-2017). Além disso, a região também é ameaçada pela desertificação, em função da grave deterioração dos solos produtivos.

Graciliano Ramos, em Vidas Secas, mostra a estética da fome na região semiárida do Brasil, com singular agudeza e dramaticidade.

O vaqueiro Fabiano, na obra, afirma que sempre tinha sido assim, “anos bons misturados com anos ruins”. Uma certeza que os personagens tinham é de que a seca logo voltaria, e com ela, lamentavelmente, esperavam a fome e as “desgraças”.

Aquela família, todavia, como tantas outras do Semiárido brasileiro, não precisaria passar sempre pela mesma situação. Os gestores de políticas públicas poderiam contribuir para o preparo e a resiliência da população no enfrentamento dos impactos da seca.

A produção de alimentos e a estocagem de água é um dos meios a contribuir para superar a repetição dos mesmos problemas sociais na região, como a fome, a sede e a desnutrição.

No Livro “Um século de secas”, os autores mostram como as recentes políticas públicas de acesso às tecnologias sociais trouxeram avanços significativos para o Semiárido brasileiro, em termos de segurança hídrica e alimentar. Os autores ressaltam que, para reduzir a fome, é necessária a universalização desses programas sociais, visando atender às demandas da população.

A volta da fome ao Semiárido brasileiro é inaceitável nos dias atuais, e já sabemos os caminhos de como combatê-la.

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5) Inserir o Semiárido em um projeto de País

O Semiárido brasileiro inserido em um novo projeto de País

Para os protagonistas do romance, a seca era um “perigo”, uma “desgraça” que “estava em caminho”, “se avizinhando a galope, com vontade de matá-los”, “abrasava” os caminhos por onde andavam; era sinônimo de “fome”, “medo”, “castigo”, “sede”, “tormento”, “morte”, “miséria”; era por causa dela que a Caatinga se transformava em um “cemitério”.

Graciliano Ramos questionava o lugar ocupado pela população pobre da Caatinga no novo projeto de reestruturação que marcou o Brasil dos anos 1930, denunciando as mazelas sociais do campo, no momento em que o País avançava para consolidar o seu projeto de urbanização e industrialização.

Essa população pobre não fazia parte do novo projeto nacional. Por essa razão, a família continuava dependente das perversas estruturas de poder na região e vulnerável à seca.

Como discutido no post “O que os presidenciáveis têm a dizer sobre o Semiárido?”, na maioria dos projetos de governo dos candidatos à presidência da República, nas eleições de 2018, a região foi esquecida, continuando à margem de um projeto de desenvolvimento nacional.

6) Educação para as crianças

Criança do Semiárido com acesso ao mundo digital
Educação para todas as crianças

A obra Vidas Secas mostra uma família sem identidade, sem destino e sem esperança. Em particular, as crianças não tinham infância, não possuíam um nome, sendo chamadas apenas de “menino mais velho” e “menino mais novo”. Até os animais, como é o caso da cachorra Baleia, possuíam um nome. As duas crianças vivenciaram os “horrores” da seca e da fome, ao migrarem pelo sertão.

O horizonte da família era “acanhado”. Em um período de relativa estabilidade naquela fazenda, encontrada abandonada, no início das chuvas, os pais pensaram que ali as crianças poderiam ser felizes, aprendendo o mesmo ofício de vaqueiro, exercido pelo pai, sem nenhum tipo de instrução formal. Foi na fazenda que puderam pensar “a respeito da educação dos meninos”, um privilégio apenas dos anos “bons”.

Mas o sonho de sinhá Vitória e Fabiano era encontrar a cidade grande, onde os filhos pudessem frequentar escolas, “aprendendo coisas difíceis e necessárias”. A família andava para o Sul, mas não sabia ao certo para onde iria.

7) Oportunidades para as mulheres do Semiárido

Sinha Vitória migra com a família pela Caatinga
Sinha Vitória migra com a família pela Caatinga. Fonte: Filme "Vidas Secas"

Sinha Vitória, protagonista de Vidas Secas, utilizava várias estratégias para sobreviver à opressão e à miséria a que estava submetida com a família. Em um contexto predominantemente patriarcal e coronelístico, ela tomava decisões para reverter aquela realidade na qual viviam.

Sinha Vitoria era quem fazia as contas da partilha dos bezerros e cabritos, antes de Fabiano ir tratar do assunto com o patrão. As contas do “dono da fazenda” eram diferentes e contra o vaqueiro. Mas Fabiano sabia que sinha Vitória estava certa, mas resignava-se diante do patrão, ao ser ameaçado de despejo.

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Uma mulher forte, movida pelo sonho de possuir uma cama de lastro de couro e não mais dormir no desconforto de uma cama de varas. Esse sonho era bem mais amplo. A metáfora significava a possibilidade de permanecer fixa à terra com a família. Conquistar a cama, objeto de desejo de sinha Vitória, era ascender para uma condição de estabilidade, de segurança, de descanso, da vontade de não mais necessitarem migrar. Seria o fim daquela caminhada infrutífera sempre por terra alheia.

No seu sonho, não cabia só a cama de lastro de couro, mas uma vida melhor para seus filhos, quiçá em outro lugar, com escola e outras oportunidades para eles e para os filhos.

Essas são as principais lições deixadas pelo romance Vidas Secas para um Semiárido mais justo, com menos vulnerabilidade social.

E você, quais outras lições destacaria da obra Vidas Secas?

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